O Brasil no centro da viagem à América do Sul de Albert Kahn (1860-1940)

Albert Kahn, banqueiro filantropo, empreende no verão de 1909 uma viagem de negócios à América do Sul, viagem documentada por centenas de clichês conservados no museu departamental Albert-Kahn, e que se tornou objeto de uma exposição em 2023.

A viagem de Albert Kahn

A reconstituição exata da viagem de Albert Kahn neste verão de 1909 mostra-se delicada. De fato, após a sua ruína em 1932 e a compra de suas propriedades pelo departamento do Sena em 1936, nenhum arquivo privado foi conservado. Dessa viagem, restam tomadas de vista em preto e branco e autocromos no formato 9 x 12 cm.

Algumas placas estereoscópicas positivas anotadas permitem, contudo, reconstituir suas diferentes etapas. Muitas imagens são testemunhos da vida a bordo do vapor alemão König August Frederick, que chega em Buenos Aires em 27 de agosto após escalas no Porto, no Rio de Janeiro e Montevidéu.  Na Argentina, Kahn viaja de trem de Buenos Aires à cidade de Rosário. Em seguida, volta à capital argentina, de onde, no início de setembro, embarca no Astúrias para ganhar o Rio de Janeiro. Depois de uma escala em Santos, Kahn passa por São Paulo, antes de desembarcar, em 09 de setembro, na capital brasileira, onde permanece cerca de dez dias, incluindo uma visita à vilegiatura de veraneio, Petrópolis. Segundo a administração da aduana, Kahn viaja com Alfred Soudieux, que têm 35 anos e é designado como escritor. Segundo os arquivos da Divisão de polícia marítima, aérea e de fronteiras – DPMAF (Relações de passageiros em vapores no Porto de Rio de Janeiro, Asturias, 09-09-1909),  tratava-se na verdade de um colaborador, provavelmente um secretário, do banco Kahn, no qual permanece até 1935. No caminho de volta, a bordo do Avon III, que parte do Rio em 22 de setembro, Kahn viaja ao que tudo indica com Eugène Chaufour, politécnico que trabalhara em empresas de energia elétrica e se instala no Brasil em 1910, participando da construção da usina de gasômetro de Niterói e tornando-se o responsável pela concessionária. Albert Kahn faz escalas na Bahia, em Recife, depois em Funchal e Lisboa.

Este fundo, conservado no museu departamental Albert Kahn é absolutamente excepcional: primeiras capturas a cores do Brasil, primeiros autocromos no formato 9 x 12 cm da coleção do museu tomados fora da França.

A escala em Recife, quando o banqueiro está voltando à Europa, deu lugar à produção de uma série fascinante compreendendo 4 autocromos, 24 placas estereoscópicas e um filme. Esta verdadeira reportagem inédita sobre uma recepção diplomática é realizada em menos de três horas. Também passageiro do Avon III, o barão de Anthouard, ministro plenipotenciário francês então lotado no Brasil, é convidado pelas autoridades do Recife para uma imprevista e curta visita oficial. O capitão do vapor concorda em retardar a partida do navio. A íntegra desse episódio pôde ser reconstituída graças a um artigo publicado na imprensa local.

Os interesses financeiros de Albert Kahn no Brasil

Em 1907, o banco Kahn torna-se um dos investidores da Sociedade financeira e comercial franco-brasileira. O decreto publicado no Diário Oficial do Brasil indica uma cooperação cujos principais objetivos consistem em investimentos financeiros.

O banco Kahn investe igualmente na Companhia Docas de Santos, fundada em 1882 por empresários brasileiros para a exportação de café. Em 1888, a gestão deste porto é outorgada em concessão por 92 anos à família Guinle. Esta família é recebida, quando de uma temporada na França em 1926 e 1927, na propriedade de Kahn em Boulogne. Existem vários retratos nas coleções do museu assim como um filme com a família Figueiredo em Vichy, departamento de Allier.

O governo brasileiro e dois homens de negócios e deputados, o francês Edmond Bartissol e o brasileiro Demétrio Nunes Ribeiro, assinam um contrato em 4 de agosto de 1908 para a execução de obras de melhorias do porto de Recife (decreto 72-07 de 3 de dezembro de 1908). Contudo, se o nome de Albert Kahn é mencionado na imprensa local quando se encontrava no Brasil, os jornalistas louvam sobretudo sua contribuição para o desenvolvimento artístico e literário da França, assim como o seu engajamento para a aproximação intelectual com outras nações.

A integralidade deste fundo excepcional deu lugar a uma exposição e a um livro, acompanhados de um trabalho metódico de geolocalização das imagens. Trabalho por vezes árduo em razão da ausência de legendas nas placas preto-e-branco e coloridas. Este estudo pode ser consultado no seguinte site: https://storymaps.arcgis.com/collections/bbae829c1600405ea68eb85806d9f9e6

 

Publicado em maio de 2024

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