Em 11 de maio de 1857, o Diário do Rio de Janeiro anunciou que dali quatro dias seria inaugurado na cidade o estúdio fotográfico do francês Victor Frond (1821-1881), em sociedade com o pintor alemão Adam Fertig (1810-?). O início do empreendimento era auspicioso, pois recebeu uma doação do imperador Dom Pedro II e já tinha um projeto editorial encaminhado, a Galeria dos Brasileiros Ilustres. Nesse projeto, Frond se associou a um conterrâneo seu, o litógrafo e desenhista Sébastien Auguste Sisson (1824-1898). Para a Galeria, Frond fotografou Dom Pedro II e outros membros da família imperial, mas logo se distanciaria desse projeto para assumir outro, o do Brasil Pitoresco, cujo álbum, publicado em 1861, é o primeiro livro de imagens da América Latina inteiramente baseado em fotografias.

O percurso que levou Victor Frond até o Brasil foi bastante tortuoso. Militante republicano e oficial do Batalhão do Corpo de Bombeiros de Paris, Frond é preso duas vezes por participar de atos de resistência ao golpe de 2 de dezembro de 1851. Em sua segunda prisão, é transferido para uma colônia penal na Argélia, de onde foge em 1852 e se dirige para a Inglaterra. Em Londres se reúne aos exilados políticos franceses e recebe a proteção de Victor Hugo. Dois anos depois instala-se em Lisboa, onde aprende o ofício de fotógrafo. É para praticar esse ofício que ele chega no Rio de Janeiro em outubro de 1856.

O Brasil Pitoresco pode ser visto sobretudo como obra de propaganda que visava atrair imigrantes europeus para o país, cuja elite já contava como inevitável o fim da escravidão. O texto desse livro-álbum foi escrito pelo jornalista e militante republicano francês Charles Ribeyrolles, que saiu de seu exílio na Inglaterra para vir ao Brasil em 1858, a convite de Frond. Os textos do Brasil Pitoresco foram publicados em 1859, em três tomos, nos quais Ribeyrolles faz um panorama da história do Brasil, descreve a cidade e a província do Rio de Janeiro, trata da organização política do Império e relata a vida em colônias de imigrantes europeus na província. O projeto previa a publicação de outros volumes sobre a Bahia e Pernambuco, mas a morte de Ribeyrolles em 1860 e os altos custos editoriais inviabilizaram sua continuidade. Em 1862, anistiado pelo governo de Luís Bonaparte, Frond retorna a Paris.

Litografadas na prestigiosa Maison Lemercier de Paris, as 75 fotografias de Frond que compõem o álbum do Brasil Pitoresco circularam de forma avulsa antes de serem reunidas na publicação de 1861. Entre retratos da família imperial, panoramas e cenas urbanas do Rio de Janeiro, vistas de fazendas e cidades provincianas, destacam-se no álbum as mais de 20 cenas que têm como tema principal o trabalho escravo no campo. Nesse aspecto, o interesse da objetiva de Frond atualiza o interesse do pincel de Jean Baptiste Debret (1768-1848) em sua Viagem pitoresca e histórica ao Brasil (1834-1839), em cujas litografias o trabalho dos escravos, no campo e na cidade, é amplamente explorado. Nas cenas de escravidão de Debret dominam a violência física – provável, iminente ou consumada – e as relações de inferioridade e submissão do negro escravizado em relação ao branco. Nas fotografias de Frond, os trabalhadores escravizados não se relacionam com brancos, que nunca são encenados. Os negros escravizados estão sós, compenetrados em suas atividades ou em um momento de pausa. São cenas que buscam transmitir um ar de placidez e dignidade camponesa.

Os dispositivos fotográficos do período obrigavam os modelos a permanecerem bastante tempo imóveis. Nessa pose, a violência e a brutalidade da escravidão se expressam no congelamento de rostos e corpos circunspectos, desconfiados, temerosos. Afinal, atrás das câmeras, um fotógrafo branco dirigia os modelos, provavelmente acompanhado por um feitor ou pelo próprio dono da fazenda.

Se, na Europa, Frond e Ribeyrolles eram militantes republicanos, enquanto estiveram no Brasil eles acabaram por assumir a tarefa de criar uma imagem positiva do Império brasileiro tanto aos olhos do público europeu quanto aos dos próprios brasileiros. Aos europeus, as imagens revelavam que o trabalho nas fazendas brasileiras se fazia em condições amenas, elemento importante para a atração de mão de obra do Velho Mundo. Aos brasileiros, essa mesma amenidade oferecia uma versão complacente do sistema escravista sobre o qual se assentava o Império.

O fato de o Brasil Pitoresco ser obra de republicanos a serviço do Império não terá sido uma contradição incômoda para as elites brasileiras, que apoiaram e financiaram parcialmente a publicação: ela acompanhava o movimento de uma sociedade que aspirava aos avanços da modernidade sem abrir mão do atraso enraizado pela escravidão.

 

Publicado em Fevereiro de 2022