Qui vult regnare, scribat
Gracián

As formas, circulações e usos dos escritos, tanto impressos quanto manuscritos, são objeto de um interesse renovado de parte dos historiadores e literatos. Logo após os trabalhos de Roger Chartier, de Fernando Bouza e de Diogo Ramada Curto (entre outros), a tradicional relação entre o nascimento da imprensa e a abertura dos horizontes geográficos foi revista.

As práticas de comunicação, os suportes da escrita; as redes entre informantes, escritores, copistas, tradutores, compiladores, prefaciadores, impressores, leitores; os canais de coleta e de distribuição da informação; as transformações das fronteiras entre gêneros e o impacto sobre as retóricas e poéticas, tudo isso são alguns dos tantos elementos que afetam diretamente a percepção do mundo colonial. As guerras reais, e de pluma, no centro da disputa entre poderes imperiais pela “descoberta” e possessão das terras, a preocupação com as recepções, as defasagens ou desvios quando os escritos ultrapassam as fronteiras, inauguram uma era das mídias. Assim, foi possível falar de uma “invenção” do Brasil no século XVII em vista da proliferação dos escritos (Guida Marques), ou afinar o debate, no seio da literatura que então era produzida, em torno das “viagens dos escritos” (Adrien Delmas).

Esta escrita é disseminada; ela passa por várias mãos e por diversas línguas. Diz respeito tanto à cultura oral quanto à cultura letrada, concerne tanto o suporte impresso quanto o manuscrito com suas cadeias de cópias, reproduções, censuras e intervenções nos textos. Ela pode, assim, transformar o debate confidencial em discussão pública. O escrito como descoberta, conhecimento, arma de governo e de reivindicação de uma terra, ou ainda de afirmação de si, leva então à cena a consciência de um sujeito. Seja este sujeito um indivíduo, uma nação ou um lugar geográfico.

O Brasil emerge no século XVII graças à disputa colonial ao norte (França Equinocial), no nordeste, à frequentação da costa e à penetração em direção ao interior. Ainda que fisicamente evacuada, a França continuará tendo sempre os olhos voltados para aquele espaço. É possível até falar-se da centralidade francesa no seio da disputa entre mundos ibéricos (luso-castelhando entre 1580 e 1640, e depois português e luso-brasileiro), potências emergentes (a Holanda) e mundos exteriores ao império (protestantes).

Antes da tomada da Bahia pelos holandeses em 1624 e sua reconquista em 1625, data retida como decisiva pelo historiador Stuart Schwartz, a matéria brasileira circula. Os textos da França Antártica são reimpressos, comentados, traduzidos; as crônicas de Castanheda, de Osório. A obra sobre o Brasil do humanista Gândavo é publicada em 1571; e os compêndios dos interpretadores Soares de Souza e Brandão certamente circularam fora de espaços brasileiros e ibéricos. Isto sem esquecer as relações dos jesuítas refundidas em histórias da evangelização (Du Jarric). Além disso, as compilações dão conta desta circulação: Ramusio, De Bry, a coleção inglesa de Hakluyt aumentada em 1625 por Purchas. Nesta última tiragem, alguns textos dizem respeito diretamente ao Brasil (Knivet, Cardim). Consagrados à terra e aos índios, eles serão divulgados na grande obra de Laet.

No final do século XVI, Lancelot Voisin de la Popellinière, pai da história moderna, inovara : inspirado nas crônicas ibéricas, o hunguenote louva a escrita como garantia de descoberta e de legitimação das tomadas de além-mar ; ele reivindica a comunicação como honra de uma nação e incita a França a participar na expansão. Este chamado será atendido pelos holandeses, e l’Itinéraire de Linschoten publicado em 1595 é um marco fundador. Abastecido pelos cadernos de navegação dos portugueses e castelhanos, este viajante guiará a mão dos pilotos, fortalecerá as ambições da futura Companhia das Índias Ocidentais e fará o sucesso do livreiro Claesz que expande a biblioteca viática do letrado. Império sobre os mares, sucesso comercial e ponto de encontro editorial : tal é a imagem, e logo a seguir modelo, da Holanda que tanto surpreende a França (Les Délices de la Hollande).

A conquista da Bahia em 1624 e a expulsão dos holandeses no ano seguinte assinalam a entrada do Brasil no debate público graças a relatos, crônicas reais, históricas, petições de serviços, genealogias, pareceres, « jornalecos », planfetos, gravuras, pinturas, peças de teatro. Religiosos, leigos, cavalheiros, negociantes, letrados, simples soldados… As plumas, em diversas línguas, se ativam nos espaços atlânticos (Luanda, Brasil, Europa), mobilizam os fatos e inauguram debates no cenário geopolítico.

O ataque holandês ao Pernambuco em 1634, o Brasil « holandês » reconquistado em 1654, a fragilidade de um Portugal restaurado até o fim dos anos 1660, a entrada no « sertão » pelos luso-brasileiros, a vocação imperial da França, sempre mais afirmada desde Mazarin, formam o segundo capítulo.

A grande riqueza dos textos legados pelos holandeses é bem conhecida e divulgada na França : Laet, Barleus, Maurice de Nassau, Piso e Marcgrav, Jean Nieuhof. E nos bastidores do poder e das instituições, nas redes diplomáticas e intelectuais, vários elementos circulam. Os acervos de arquivos e as bibliotecas privadas são um testemunho evidente. Na obscuridade, a carta vai e vem atravessando as fronteiras espaciais e as barreiras da língua, do segredo e da censura. Ela acompanha as trocas materiais (mapas, objetos « exóticos »…), inspira as obras pensadas para serem impressas e gêneros elaborados para círculos restritos (epístolas, meditações espirituais, poesias…)

A questão « holandesa » atualiza vários ângulos. Os portugueses escrevem e suas informações transitam via manuscritos ou impressos coletados, pareceres ou escritos destilados como propaganda, doações ou trocas de obras, traduções e edições antigas e modernas então publicadas. E, sob um outro aspecto, o conhecimento dos escritos — e dos manuscritos — holandeses é também atestado. Porque a França não é apenas ponto de encontro. O testemunho de Moreau e sua tradução de Roulox Baro inscrevem a presença francesa no seio da empreitada holandesa. Os manuscritos da Bibliothèque Nationale, as correspondências, estes materiais esclarecem o interesse de duplo sentido. Como a tradução, oferecida a Colbert, de uma descrição do estado do Maranhão da mão do português Heriarte em 1662. Em 1655, o Conde de Pagan havia dedicado a Mazarin um livro sobre a Amazônia, e o relato de Acuña, adaptado mais do que traduzido, por Gomberville, aparece em 1682. Curiosidades que obedecem, talvez, a um novo projeto imperial. O escrito adquire sentidos e papéis diferentes ao se deslocar.

« Luso-brasileiros » negociam também por esta via o seu lugar na sociedade colonial, daí os textos de soldados e « sertanistas ». Além disso, com o envio de um objeto « exótico », administra-se o prestígio individual, tribal. Roulox Baro fala das mensagens que correm os sertãos. E ele esboça um retrato comovente de Janduí no centro da informação sobre as forças que se defrontam, denegrindo os presentes oferecidos pelos holandeses para obter sua aliança. Estes presentes lamentáveis que estão longe de modernizar seu « gabinete de curiosidades » para assentar sua influência diante de seus vizinhos índios.
 

Legenda : Asia de Joam de Barros. P. de Magalhaes Gandavo. 1576