Ao sair de Saint Malo à frente de um frota de 17 navios e de 5000 homens, Dugay-Trouin desejava levar o nome francês ao novo mundo, atacar uma colônia florescente e vingar a morte de Jean-François Duclerc. Em 1710, este último fora enviado com uma esquadra de 1200 homens para tomar a cidade; fracassara por pouco, terminando por ser preso e morrer assassinado. Em setembro do ano seguinte, uma imponente frota francesa rasga a bruma que cobre a Baía do Rio de Janeiro e surpreende as defesas brasileiras. Duguay-Trouin força a entrada da enseada, distribui seus homens e sua artilharia, e começa as tratativas com as autoridades coloniais que, num primeiro momento, refutam qualquer negociação. Mas a chegada de reforços vindos de Minas Gerais demora muito e, na noite de 21 para 22 de setembro, a cidade é evacuada. Marinheiros e corsários desembarcam em uma cidade aberta e, logo a seguir, saqueada. A rendição assinada, o resgate exigido e o resultado do espólio são de sonho: quilos de ouro, prataria, víveres, açúcar...

Este episódio espetacular, e apreciado de maneira diversa, iria marcar por muito tempo os espíritos. Ele coroava a época da pirataria, consagrava a figura heróica do corsário e se inscrevia na cena de uma guerra européia transportada para mares longínquos.

Alvo recorrente desde a tentativa frustrada da França Equinocial, o Brasil conservou um lugar nos cálculos do reino de uma França que afirma a sua preponderância e seu desejo de hegemonia na Europa.

Viajantes descobriam as sociedades coloniais do Rio de Janeiro, da capital São Salvador da Bahia de Todos os Santos, as expedições paulistas ao interior do país, a rota do ouro dos mares do sul (de Pyrard de Laval em 1615 a François Froger em 1698). E se o gosto pelo exótico às vezes ainda domina, a conquista holandesa do nordeste brasileiro (1630-1654) permitiu uma verdadeira redescoberta do território (Pierre Moreau...). A partir da segunda metade do século, as navegações francesas alimentam as ambições coloniais do rei, mesclando buscas de informações, intenções militares e comércio.

Após um meio século de conivência franco-portuguesa que autorizou, por exemplo, a instalação de missões franciscanas no nordeste (Martin de Nantes), o clima se deteriora, com um ponto de cristalização sobre o espaço brasileiro. Os conflitos dinásticos e territoriais na Europa — as guerras da da liga de Augsburg (1688-1697), depois a sucessão da Espanha (1701-1713) — acarretam tensões crescentes. A França faz valer antigas pretensões sobre o Brasil, especialmente em torno da Amazônia. Estes atritos atingem o ponto de ruptura em 1703-04, momento em que Portugal opta pela aliança inglesa contra a França e fecha os portos brasileiros aos navios franceses, cujas escalas para descanso já eram a muito custo toleradas (Froger; Frézier).

Esta fase de hostilidade consagra a guerra de corso, Luís XIV dando toda liberdade a seus flibusteiros para atacar. Portugal e suas possessões são diretamente atingidos, visto que à mesma época são descobertas jazidas de ouro em Minas Gerais (Antonil). Os produtos eram estocados no Rio antes de serem encaminhados à metrópole. Pois é no contexto da guerra e do atrativo do ouro que é preciso situar as operações de Duclerc e de Duguay-Trouin, que partiram para se abastecer diretamente na fonte.

A pirataria serviu de maneira decisiva à política expansionista de Luís XIV. No Brasil, a consequência do ataque é imediata. Um engenheiro francês foi encarregado de reformar o sistema decisivo da cidade construindo uma muralha, hoje desaparecida. Para garantir a proteção — e um melhor controle — dos súditos e das frotas, a sede do vice-reino foi tranferida para o Rio de Janeiro.

A paz de Utrech, assinada em 1713, paradoxalmente iria abrir um novo palco de conflitos mais ao norte, em torno das margens do Amazonas.

As Mémoires de Duguay-Trouin, publicadas em 1740 (após uma edição pirata(!) de 1730) ilustram a epopéia corsária da França de Luís XIV. O relato bunda em extravagâncias, ataques e manobras de abordagem. A infeliz aventura de Duclerc em 1710 no Rio de Janeiro precedeu em um ano a façanha de Duguay-Trouin. A estes episódios o autor dedica páginas de uma grande densidade dramática.

Pyrard de Laval, 1615, Voyages

Este viajante fez escala no Brasil, em Salvador, em 1610. Sua descrição é rápida e cheia de equívocos. O aventureiro faz o retrato de uma “sociedade colonial” luxuosa e corrompida, cujos traços serão retomados em descrições posteriores. Ele renova, contudo, o imaginário exótico: a aventura noturna com uma esposa “brasileira” vigiada ciosamente, na falta da conquista territorial cobiçada.

A conquista holandesa divulgada na frança

Assim como as outras nações, os holandeses tentavam se estabelecer no Brasil. A cidade de Salvador da Bahia, tomada em 1624, é rapidamente evacuada, mas o Pernambuco, onde a conquista se inicia em 1630, é objeto de uma longa colonização. A obra de Pierre Moreau comenta feitos de guerra e divulga relatos admiráveis. A partir da dominação holandesa, informações precisas sobre a geografia e a história do Brasil circulam na Europa e atiçam a cobiça de vários países. Jean Maurice deNassau, governador do encrave holandês entre 1637 e 1644, estende o domínio até o Rio Grande do Norte e recorre ao trabalho de pintores e sábios. O compêndio histórico de Gaspar Barleus, os tratados naturalistas de Marcgrav e Pison são preciosos, e os trabalhos artísticos de Frans Post e de Albert Eckout, sobre a natureza, são únicos: índios, plantações, fauna, flora... Trinta e quatro quadros e oito tapeçarias realizadas segundo estes esboços foram presenteadas ao rei Luís XIV em 1679. E serviram de modelo para as tapeçarias com motivos exóticos fabricadas nos Gobelins.

Padre Antonio Vieira (1608-1697)

O jesuíta Vieira foi um missionário, orador e conselheiro político de exceção. Ele domina as letras luso-brasileiras do século XVII. Estes dois sermões foram os únicos publicados na França enquanto ele ainda estava vivo, e ilustram as alianças francesas da monarquia portuguesa. À parte os acontecimentos admiráveis que levaram à divulgação destes sermões, o discurso esboça uma pintura fabulosa das conquistas portuguesas: estas Índias Orientais e Ocidentais cobiçadas — Vieira era consciente disso — por uma França com uma espiritualidade militante e conquistadora, antes um apanágio dos reinos ibéricos.

Os capuchinhos bretões no Brasil

Martin de Nantes, Histoire de la mission du P. Martin de Nantes, ... chez les Cariris, tribu sauvage du Brésil, 1671-1688, reimpressão — Roma: Arquivos Gerais da Ordem dos Capuchinhos, 1888. O relato do Padre Martin de Nantes elucida a missão dos capuchinhos franceses instalados em Olinda, os trabalhos de catequese, a vida dos índios cariri, a conquista do sertão. Em sinal de represália, estes missionários que estendiam-se até o vale do São Francisco, essencialmente franceses, foram expulsos após a ocupação de um forte português ao sul da Guiana em 1697.

O Brasil na rota para "Os mares do sul"

*O “comércio do mar do sul” visava o acesso direto à prata peruana através da abertura de uma nova rota marítima via Cabo Horn. O desejo de fundar uma colônia também era às vezes um objetivo (empreendimento de De Gennes). Os navios podiam fazer estadias nos portos brasileiros de Salvador ou do Rio antes de descerem em direção ao sul. Com o início das hostilidades, os marinheiros e corsários privilegiam as águas menos controladas: a mítica Ilha Grande e a ilha de Santa Catarina, ao sul. Entre trocas e apoio dos colonos, represálias e ataques, as relações são das mais ambíguas. Depois de 1720, os navegadores continuarão a frequentar as águas costeiras e o litoral do Brasil.

O ouro e as minas do Brasil

Antonil, André João, Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas [1711]. A obra deste jesuíta foi interditada desde o momento de sua publicação. Ela trazia informações preciosas sobre o sistema econômico. A exploração das minas descobertas em 1698-99 e a opulência da cidade do Rio de Janeiro, contudo, já eram conhecidas na Europa.

 

Legenda : Recueil des combats de Duguay-Trouin. XVIIIe s.