Como é o caso da Biblioteca Nacional de França, que conserva um volume, o Ms. Portugais 48, composto de 33 documentos dos quais 18 reportam esta guerra. O códice pertenceu a Jules Mazarin (1602-1661), Cardeal e Primeiro-Ministro da França (1643-1661) sob a regência de Ana de Áustria (1601-1666).

Atualmente, estes documentos são objeto de análise detalhada, no âmbito do projeto mais amplo de recatalogação sistemática e estudo histórico da coleção de manuscritos ibéricos de Mazarin, desenvolvido no Departamento de Manuscritos Ocidentais da BnF. As notícias serão publicadas em breve na BAM3 (base arquivos e manuscritos da BnF, archivesetmanuscrits.bnf.fr) e uma versão digital das peças manuscritas estará igualmente disponível no site gallica.bnf.fr.

O volume conserva uma cópia de carta enviada pelo comandante da armada portuguesa, Dom Manuel de Meneses (1565-1628), ao rei Filipe IV (1605-1665). Embora constitua uma antologia de manuscritos, nele também se encontra um exemplar impresso do texto de Francisco de Avendaño y Vilela, Relacion del viaje y sucesso de la armada que por mandado de su Magestad partio al Brasil, a echar de alli los enemigos que lo ocupavam (Sevilla, Francisco Lyra, 1625. In-4). Estes dois autores contribuíram para a difusão da versão mais conhecida sobre a guerra, na qual se ressaltava o valor da nobreza portuguesa na retomada de Salvador e as vantagens da cooperação militar luso-espanhola, embora Meneses também tenha sido explícito a respeito da rivalidade da parte portuguesa para com a espanhola.

Os outros manuscritos do Portugais 48 contêm informações relativas aos navios, soldados que participaram na guerra, provisões levadas ao Brasil, recursos financeiros captados em Espanha e Portugal para financiamento da guerra e relatos de caráter intimista que não foram publicados e expressam pontos de vista diferentes da versão canônica sobre a guerra. Eles acrescentam algumas nuances à polifonia dos testemunhos. Além disso, são exemplos da ampla circulação dos relatos sobre a guerra na Bahia no início do século XVII. As variações de caligrafia, características do suporte (papéis de diferentes dimensão, gramatura e tinta) e marcas no papel que indicam que foram enviados como correspondência, demonstram as múltiplas procedências dos textos.

Não se sabe se os documentos foram reunidos em Paris em um volume uma vez na biblioteca de Mazarin ou integraram a sua coleção já como tal. A encadernação, do século XX, não permite aprofundar estas reflexões. Eles fizeram parte dos milhares de manuscritos comprados Gabriel Naudé para a biblioteca ou foram oferecidos por diplomatas portugueses, sendo, neste caso, testemunho de uma vasta rede de comunicações estabelecidas na tentativa de conclusão de uma aliança franco-lusitana, ao longos das duas décadas que sucederam a Restauração. Por quais mãos e em que momento eles entraram na livraria privada de Mazarin? Traçar o perfil da coleção contribui para a compreensão de possíveis usos políticos deste arquivo privado. A recapitulação do passado comum da França com os reinos ibéricos desde a Idade Média e o conhecimento da cultura e história dos impérios português e espanhol que os volumes de miscelâneas oferecem, podem ter influenciado Mazarin no delineamento geral ou preciso, das relações externas que ele conduziu, visando o fortalecimento da monarquia de França? Estas e outras questões que concernem o Portugais 48 são extensivas ao restante dos manuscritos do Primeiro-Ministro que se reportam aos temas ibéricos.

Além de contribuir para os estudos sobre União Ibérica, Restauração e interesses mercantis portugueses, espanhóis ou holandeses na América, os documentos evocam, sobretudo, a centralidade das relações franco-ibéricas no século XVII. Os relatos sobre a guerra na Bahia forneciam rica matéria de reflexão. Salvador foi escolhida como alvo dos holandeses pois este porto protegido foi depositário das esperanças de expansão para outras partes da América ibérica, participação da rede de comércio e açúcar e acesso a prata de Potosí. Os territórios da América do Sul também foram cobiçados pelos representantes da monarquia francesa no século XVII. As tentativas de implantação colonial (França equinocial) no Maranhão e Guiana o confirmam. Além disso, a Guiana também foi invadida pelos holandeses depois que estes foram expulsos de Pernambuco (1654). Os relatos sobre a experiência ibérica de combate a este inimigo comum à França pode ter oferecido informações de valor tático.

Como foi lembrado, os textos autorizados buscaram cristalizar a imagem de que a retomada de Salvador foi possível graças a ação militar de uma armada invencível, a maior que já cruzara a linha [do Equador], segundo Antônio Vieira. A expectativa de uma eventual ajuda militar portuguesa ou espanhola, ainda que improvável, também pode ter pesado entre as considerações de aliança formal da parte da França. Os relatos não impressos também permitem observar que a guerra na Bahia foi apresentada como preâmbulo de um ideal de união militar ibérica perene na defesa dos territórios ultramarinos que terminou por afirmar sua impossibilidade, em função do profundo sentimento antiespanhol da parte portuguesa da armada, e da dificuldade geral em mobilizar a nobreza ibérica para a guerra.

Se Mazarin e seus colaboradores, os manuscritos sobre a guerra na Bahia podem ter fornecido elementos para uma análise precisa das vantagens efetivas de uma aliança com a Espanha ou com Portugal, após 1640, considerando as conveniências para a política européia e os interesses geoestratégicos e econômicos na América do Sul.

Mazarin constituiu uma imensa biblioteca privada, que a sua morte contava com cerca de 35 000 volumes impressos e manuscritos. Em 1668, aproximadamente 2400 manuscritos foram transferidos para a Biblioteca Real, instituição na origem da Biblioteca nacional de França.

 

Legenda : Portugais 48. XVIIeme.