A evocação de Saint Louis, rei medieval cujo culto se difundiu no século XVII, na França, aparece ainda mais expressa no nome atribuído à cidade de São Luís do Maranhão. A sobrevivência da representação do rei de França no ritual da Casa dos Nagôs ganha sentido, assim, se relembrada a história da colônia francesa fundada em 1612, a França Equinocial.

A inegável cordialidade das relações franco-tupi, desde o século XVI, a familiaridade dos franceses com o litoral norte do Brasil e o caráter abertamente missionário da empresa colonial francesa não foram suficientes para assegurar longa vida à França Equinocial. A efêmera colônia implantara-se na região com o apoio da rainha regente da França, Maria de Medici, que nomeara os Senhores de La Ravardière e de Razilly “lugar-tenentes do Rei de França na ilha de Maranhão” e escolhera missionários Capuchinhos para exercer o apostolado junto aos índios tupinambá.

Dessa experiência colonial resultou um corpus textual impresso composto de cartas apologéticas enviadas do Brasil pelos missionários Capuchinhos e, sobretudo, dois importantes relatos. O primeiro, publicado em 1614, é a L'Histoire de la Mission des Pères Capucins en l'Isle de Maragnan et terres circonvoisines où est traicté des singularitez admirables & des mœurs merveilleuses des Indiens habitants de ce païs.., que contém a descrição completa da viagem de seu autor, o Padre Claude d'Abbeville, ao Maranhão, até o seu retorno à França acompanhado do Senhor de Razilly e de seis embaixadores tupinambá. A publicação deste livro, em edição luxuosa, assim como as cerimônias solenes e a impressão de gravuras que representam os índios serviram, sem dúvida, ao propósito de encorajar novos comanditários e preparar uma possível emigração à colônia equinocial.

A situação não seria exatamente a mesma, um ano mais tarde : em 1615, Yves d'Evreux, Superior da missão capuchinha do Maranhão, fez publicar um segundo relato, Suite de l'Histoire des choses mémorables advenues en Maragnan, és années 1613 & 1614..., que o público jamais conheceu, pois os exemplares foram destruídos nas oficinas do impressor, François Huby. Um exemplar mutilado sobreviveu, salvo por François de Razilly “através de sutis expedientes”, como conta na carta que fez cuidadosamente imprimir e encadernar junto ao livro que dedicou ao rei Luís XIII, em 1617. Consciente dos interesses políticos que ameaçavam prejudicar a empresa colonial do Maranhão, Razilly revela na carta as circunstâncias que contribuíram para que a “facção espanhola”, que apoiava o projeto de casamento do jovem Luís XIII com a infanta Ana d'Áustria, exercesse forte pressão para que os franceses deixassem o Maranhão. E foi por essas razões que a coroa francesa cessou de apoiar a colônia maranhense, desmantelada em novembro de 1615 pelas forças portuguesas.

Na França, a dimensão tanto política quanto religiosa do projeto de colonização do Maranhão havia encontrado a sua expressão mais forte no momento da recepção dos embaixadores tupinambá em Paris, entre 1613 e 1614. Sempre acompanhados pelo Padre Claude e pelo Senhor de Razilly, os índios foram conduzidos ao Louvre para prestarem homenagem ao rei de França e "colocar suas pessoas e suas terras sob o seu cetro”, reconhecendo-o como “seu rei e soberano monarca” (Histoire de la mission, p. 340v°-341).

O Mercure François do ano de 1613 – publicação que fazia circular os faits divers e o noticiário político –, dedica algumas páginas à presença dos “Toupinambous Maragnans” em Paris : dirigindo-se ao público cristão francês e, em particular, a eventuais benfeitores e investidores, apresenta a região como “a chave do Brasil”. Assim como nos relatos missionários, este elogio à colonização francesa é indissociável da apologia da docilidade e da vontade de conversão e, não menos, de afrancesamento dos Tupinambá. Nesse sentido, outras imagens vêm corroborar as representações da conversão dos índios na França: duas gravuras, impressas alguns meses antes da publicação do relato de Claude d'Abbeville, exibem os Tupinambá em espetáculo exótico e edificante, integrados à ordem monárquica e católica das cerimônias solenes.

A primeira delas é uma gravura em cobre, divulgada provavelmente entre abril e junho de 1613, em que 6 selvagens estão representados, 3 de frente e 3 de costas. Parecem estar dançando, carregando maracás nas mãos. Dois deles levam nas cabeças plumagens que lhes caem pelas costas e o resto da indumentária é francesa (a gola pregueada, o gibão, as calças bufantes, as meias, os sapatos de laço e a cruz no pescoço).

A segunda gravura, realizada também em 1613, e vendida em “Paris, por Michel de Malebourse, na rua Monorgueil”, representa a cena do batismo solene dos três Tupinambá, na Igreja dos Capuchinhos. Desta vez, 3 índios catecúmenos estão de joelhos diante do rei, em presença dos Capuchinhos, da regente e dos representantes da corte. Três estrofes versificadas seguidas de um texto, logo abaixo da imagem, evocam a ordem monárquica e católica na qual se insere a presença dos "estrangeiros" na corte francesa, a fim de "instruir-se na religião" e prestar homenagem ao rei.

O livro de Claude d'Abbeville foi publicado no início do ano de 1614, nesse contexto de euforia geral, posto que, primeiro, havia de se tirar vantagem da presença dos Tupinambá em Paris ; segundo, era urgente a partida de uma segunda companhia para o Maranhão, consideradas as necessidades materiais e humanas da França Equinocial naquele momento.

Desde a publicação, mais de meio século antes, em 1551, do livreto que assinalava a participação de cerca de 50 selvagens na festa brasileira organizada no momento da Entrada Real de Henri II em Rouen, toda uma série de documentos atesta a presença de “brasileiros”, na França. Foi também em Rouen, em 1562, que Montaigne encontrou os três índios que haviam sido apresentados ao rei Charles IX, e "entretivera-se longamente com eles", aos quais "mostraram nossos modos, nossa pompa, a forma de uma bela cidade" (Essais, Livre I, chapitre XXI). Ou ainda em Bordeaux, em 1566, onde outro cortejo com índios do Brasil foi organizado em homenagem a Charles IX.

A propaganda monárquica que encerra as cerimônias parisienses de 1614 alinhava-se com os princípios apostólicos modernos. Por um lado, as missões seriam como um tempo forte, em plena progressão, do sentimento divino que todo homem carrega virtualmente em si. Por outro lado, a devoção coletiva era considerada fenômeno político importante, numa perspectiva mais ampla de constituição de uma comunidade católica universal, que reunisse, nesse caso, desde “a ilha” dos Tupinambá ao reino de França.

Mas tão importante quanto a eficácia da propaganda da obra missionária capuchinha francesa, é a imagem do índio bom - mais precisamente convertível - que esteve amplamente divulgada após os eventos de Paris. No bojo do processo mais geral de ocidentalização, em relatos e imagens, os índios aparecem descontextualizados, abstraídos das situações mais particulares do que se pode chamar « costume indígena ». É nesses termos que escreve Claude d'Abbeville: “estávamos ansiosos por mostrar aos franceses o fruto de nossa missão e os primeiros enxertos de nossa nova colônia” (Histoire de la mission, p. 334). Como “enxertos” da nova França Equinocial, os Tupinambá são representados fora de toda “realidade selvagem” e exibidos em espetáculo de conversão à religião e à civilização dos franceses.

Em meio à produção dessas representações e à atuação política dos defensores da colônia maranhense, não se sabia, é claro, que o Maranhão jamais seria francês. Nem se suspeitava, tampouco, que São Luís, rei de França, sobreviveria nessas terras equinociais, através dos séculos, em corpos mestiços.

 

Legenda : Batismo solene dos três Tupinambá. 1613