O Programa Unesco sobre as relações raciais no Brasil tinha como objetivo a realização de pesquisas sociológicas visando trazer à luz as características das relações raciais no país, na época considerado como um “laboratório” sobre a questão, em razão de sua composição mestiça e da suposta ausência de segregação. O programa estava em consonância com a agenda educativa, científica e política da Unesco, organismo que, por ter surgido no pós-guerra, colocou em primeiro plano os debates sobre as raças e as culturas.

A compreensão dos motivos da eleição do Brasil pela Unesco nos remete às origens do projeto, cuja história, já muitas vezes contada, se mistura com a missão universalista e humanista do organismo criado em 1945. A Unesco tinha como vocação entender as nações e os povos, e disseminar valores pacifistas e democráticos, em uma época marcada pelos efeitos dramáticos do Holocausto, pela segregação racial nos Estados Unidos e na África do Sul e também pela instalação progressiva da Guerra Fria e das sublevações coloniais. O compromisso entre conhecimento e propaganda está no fundamento do perfil da organização e aparece em todas as suas atividades, que associam pesquisa científica, educação e divulgação.

Em 1949, a Unesco lança um programa específico sobre “a questão das raças”, que resulta nas resoluções da 4ª Conferência de Paris, a fim de preparar uma ampla campanha de combate ao racismo. Logo em seguida, a instituição monta uma comissão de especialistas que redige uma “declaração sobre a raça”, assinada, entre outros, pelos sociólogos Franklin Frazier (Estados-Unidos), Luís da Costa Pinto (Brasil) e Claude Lévi-Strauss (França). Publicada em 18 de julho de 1950, a declaração constitui uma tomada de posição pública, que redunda na criação de uma “Divisão para o estudo das questões das raças” no Departamento de ciências sociais, e do programa realizado no Brasil, recomendado em 1951 na Conferência geral de Florença.

A escolha do Brasil coaduna-se com a imagem do país então considerado como um caso exemplar de ausência de ódios raciais. Esta visão difundiu-se graças à circulação das ideias do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre (1900-1987) sobre a mestiçagem brasileira a partir da tradução para o inglês de Casa grande & senzala em 1946 (mesmo que a expressão enquanto tal não figure no livro). Ideias similares sobre as relações raciais harmoniosas no Brasil haviam sido divulgadas anteriormente no livro de Stefan Zweig, Brasil, país do futuro, editado em francês e em inglês em 1942, um ano após a sua publicação em alemão.

A presença, na Unesco, tanto de brasileiros quanto de intelectuais ligados ao Brasil, certamente pesou na eleição do país como campo de estudos para a questão das raças. Podemos lembrar os nomes de: Paulo Berredo Carneiro (1901-1982), delegado permanente do Brasil junto à Unesco, onde ocupou diversos cargos ao longo de sua vida; Otto Klineberg (1899-1992), que passara dois anos na Universidade de São Paulo, de 1944 à 1946; Arthur Ramos, um dos idealizadores do projeto sobre as relações raciais; Alfred Métraux (1902-1963) que mantinha estreitas relações com os pesquisadores interessados no estudo das marcas africanas no Brasil e na América, em particular com Pierre Verger (1902-1996) e Charles Wagley (1913-1991); e o antropólogo brasileiro Ruy Coelho (1920-1990), que assumiu o cargo de pesquisador assistente da Unesco em 07 de junho de 1950.

A ideia inicial da Unesco era concentrar as pesquisas em Salvador da Bahia, considerada como a grande cidade negra do país. Contudo, os diálogos estabelecidos no momento da elaboração do projeto conseguiram ampliar o raio da pesquisa para incluir outras regiões: Rio de Janeiro, então capital do país; São Paulo, a mais poderosa cidade industrial, e Recife, o mais importante centro da região Nordeste; e, finalmente, comunidades rurais e semiurbanas foram também incorporadas graças a Wagley.

As pesquisas realizadas nas diferentes regiões do país variaram segundo os perfis dos responsáveis. Na Bahia, os resultados evidenciam o enfoque das análises de Thales de Azevedo (1904-1995) sobre a mestiçagem, as desigualdades de classe e os mecanismos de mobilidade social. Em Pernambuco, as investigações se concentraram na religião e suas influências nas relações entre negros e brancos, em conformidade com as pesquisas do antropólogo René Ribeiro (1914-1990). O estudo do Rio, sob a responsabilidade de Luiz de Aguiar Costa Pinto (1920-2002) segue o modelo usado em Salvador, mostrando-se, contudo, muito sensível à segregação local e à importância das favelas na paisagem carioca, e às associações “populares”, incluindo os grupos religiosos e as escolas de samba.

As investigações em São Paulo ganharam os traços particulares ligados à formação e aos interesses de seus coordenadores, Roger Bastide (1898-1974) e Florestan Fernandes (1920-1995), ambos próximos do militantismo negro e de seus líderes. De maneira geral, as pesquisas conseguiram mostrar a existência do preconceito de raça independentemente do preconceito de classe, e o papel dos preconceitos de cor para a manutenção do status quo, contra a ascensão dos grupos negros. Do ponto de vista metodológico, a cooperação entre negros e brancos, entre os pesquisadores da Universidade e as associações culturais e políticas negras, constituiu o coração do projeto, e a marca diferencial da pesquisa realizada por Bastide, Fernandes e seus colaboradores, que conseguiram associar de modo inédito pesquisa científica e intervenção política.

No Brasil o programa da Unesco representa uma virada na reflexão sobre as relações raciais; seu eco junto às associações políticas negras vem contrariar a grande narrativa nacional sobre o país mestiço e harmonioso, muito difundida na época, graças em particular às suas conclusões, particularmente as oriundas dos estudos de São Paulo, que mostram a existência dos preconceitos e a forte discriminação racial. Contudo, o programa, destinado a produzir ecos científicos e políticos na Europa, atravessou de modo silencioso o contexto europeu dos anos 1950. O livro que devia reunir os resultados das pesquisas não foi publicado pela Unesco. E o dossiê do Courrier de l’Unesco (1952), as edições em francês do livro de Charles Wagley sobre a Amazônia (1952) e do de Thales de Azevedo sobre Salvador da Bahia (1953), não infletiram a fraca repercussão europeia dos resultados das pesquisas patrocinadas pela Unesco sobre as relações raciais no Brasil.

 

Publicado em Fevereiro de 2022