O monumental acervo epistolar de Mário de Andrade, abrigado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), constitui um exemplo raro de conservação documental no Brasil. Formada por mais de 7 700 itens (correspondência ativa e passiva), a coleção é o reflexo de uma organização metódica. O escritor se mostrou consciente do interesse de tais documentos para a compreensão de sua multifacetada obra, de seus arquivos de criação e de pesquisa, de suas redes de sociabilidade, de sua (auto)biografia.

Em geral, os trabalhos sobre a epistolografia mariodeandradiana têm privilegiado o diálogo com escritores, artistas e intelectuais brasileiros como Manuel Bandeira, Tarsila do Amaral, Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros. Porém, à exceção das cartas recebidas de escritores e artistas argentinos, publicadas em 2013, menos visível é a correspondência do escritor modernista com estrangeiros, especialmente com os franceses, tema de capital interesse para as relações Brasil-França.

A correspondência passiva de Mário de Andrade em francês compreende cerca de 130 cartas, enviadas de diversos países, por mais de 40 remetentes, francófonos em sua maioria, mas também indivíduos de outras nacionalidades (sul-americanos, ingleses, russos, alemães) e perfis variados. Neste universo, encontram-se as trocas epistolares com os franceses e, particularmente, com os membros da missão que participaram da criação da Universidade de São Paulo na década de 1930. Dentro deste grupo que incluía nomes como Claude Lévi-Strauss e Pierre Monbeig, destaca-se a pequena, porém expressiva correspondência de Roger Bastide, contando cerca de 12 documentos (cartas, cartões postais, bilhetes), produzidos entre 1938 e 1944, todos redigidos em francês, língua que Mário dominava perfeitamente. O conjunto revela que Bastide trava desde cedo um diálogo instigante com um dos mais icônicos intelectuais brasileiros, perante o qual o professor francês se colocará como humilde aprendiz.  

 

Em busca da “alma negra” brasileira

Em seus primeiros tempos no Brasil, Bastide é ainda virgem, ou quase virgem, de conhecimentos sobre o país onde permaneceria por dezesseis anos. Em 1938, o professor francês está longe do autor da Psicanálise do cafuné (1941) ou do cientista social que legou estudos seminais sobre cultura negra, relações raciais  e cultos afro-brasileiros.

Na primeira carta presente no arquivo do IEB-USP, com data de 27 de maio de 1938, lê-se:

Monsieur,

         […] je vous envoie ce mot pour vous remercier des livres que vous avez bien voulu m’envoyer et qui sont pour moi un témoignage précieux de sympathie. Ils me seront le guide le plus sûr pour pénétrer les profondeurs de l’âme noire […]

 

Não sabemos que livros Mário teria encaminhado a Bastide, mas esse material foi sem dúvida o ponto de partida para seu mergulho intelectual e afetivo nas “profundezas da alma negra”, tema central de sua produção sociológica. A data da carta é também particularíssima. Dezesseis dias antes, em 11 de maio, Mário fora afastado do cargo de diretor do Departamento de Cultura, a dois dias do encerramento das comemorações do Cinquentenário da Abolição que ele preparara com afinco. Decepcionado, Mário parte para seu “exílio” no Rio. Bastide lhe escreve em 6 de julho, aludindo ao sentimento que se fortalece lendo as obras de Mário:

[…] J’ai commencé la lecture de vos livres et à travers eux, une grande amitié naissait en moi, à travers votre œuvre, pour votre personne. Je me faisais une fête de pouvoir cultiver cette amitié, pendant mon séjour à São Paulo, et de pouvoir travailler peut-être même avec vous […]

 

Em 20 de setembro, Bastide comenta as impressões de leitura de Belazarte, contos carregados de “vida, de dor e de trágico”, prova do entusiasmo pela obra de Mário que deveria “se tornar mais conhecido do público francês”. Nos primeiros anos da correspondência de Bastide a Mário de Andrade, dois temas são recorrentes: as culturas negras e a literatura do escritor modernista.

A correspondência aqui brevemente examinada constitui não apenas “arquivos de criação” como também “arquivos de formação” de Bastide. O futuro crítico de literatura brasileira e sociólogo iniciou-se no estudo da “alma negra” do Brasil, graças aos conselhos e leituras fornecidas por Mário de Andrade que, além de privilegiado interlocutor, contribuiu para formação do recém-chegado mestre europeu. Este diálogo franco-brasileiro ilumina novos planos das relações pessoais, profissionais e institucionais estabelecida entre os dois homens, bem como as trocas que informaram, guiaram, inspiraram e fertilizaram, no contato com o escritor brasileiro, projetos e ideias do professor francês.

 

Publicado em Fevereiro de 2022