A aventura se alimentou de retalhos de tempos antigos, bebeu a desejos de Éden e de riquezas, repercutindo nos acontecimentos políticos e religiosos de então. Apesar do seu fracasso (ou talvez graças a ele), a França Antártica coloca o Brasil no centro de uma incessante modernidade: o encanto e o desencanto do mundo; o fluxo e refluxo entre as culturas; o ideal de liberdade; a violência e a tolerância; o arcaico e o contemporâneo; em suma, este “canibal” que descrevemos alhures e que cada um de nós carrega em seu foro interior.

A disputa do Novo Mundo

Os marinheiros franceses frequentavam a costa do Brasil desde o “Descobrimento” e, na esteira dos navegadores portugueses, frotas saídas de Honfleur e Dieppe iam comercializar o pau-brasil, ou a ibirapitanga, de cor vermelha, tão requisitado para a confecção de tinturas. Buscando a inserção no comércio de especiarias, os negociantes se contentavam com as costas do norte e do sul do Brasil, travando aqui e ali alianças com as populações locais, estabelecendo bases que os portugueses se empenhavam em destruir. Estes últimos tinham enorme dificuldade em fazer respeitar o monopólio concedido pelo Tratado de Tordesilhas, e o tráfico se faz importante durante a primeira metade do século XVI. A familiaridade entre franceses e ameríndios é comprovada por uma série de documentos: itinerários, relatos de viagem (entre outros, o de Gonneville), um glossário, testemunhos cartográficos, a voga das festas indígenas.

François I, cuja tirada insolente é bem conhecida, “o sol brilha para mim assim como para todos os outros: o que eu gostaria era de ver a cláusula do Testamento de Adão que me exclui da divisão do mundo”, apoia as pretensões de seus súditos. Ele chega mesmo a obter do papa Clemente VII uma interpretação mais flexível do Tratado de Tordesilhas: admite-se que a divisão do mundo assinada em 1494 concerne apenas às terras então conhecidas e não “as terras posteriormente descobertas pelas outras coroas”.

Apesar da operação de colonização lançada oficialmente em 1548 pela monarquia portuguesa, os enclaves franceses persistem. Ao sul, por exemplo, na capitania do Rio de Janeiro, as populações indígenas, sob o comando de seu chefe Cunhambebe, são aliadas dos franceses. O Almirante de Coligny, mais tarde chefe do partido protestante, defende a ideia de um estabelecimento fortificado na América do Sul, e a baía do Rio é o local perfeito. A obra assinala uma verdadeira reviravolta: o Brasil tornou-se negócio de estado e não mais uma atividade apoiando-se em financiamentos privados.

A experência francesa na Baía de Guanabara

Em maio de 1555, o cavaleiro de Malta Nicolas de Villegagnon deixa o porto do Havre. Os dois navios transportam seiscentos homens embarcados após uma campanha de recrutamento. A frota penetra a baía do Rio de Janeiro em meados de novembro e, temendo os índios, instala-se em uma ilhota exígua, desprovida de recursos, rebatizada com o nome de Coligny. A mão-de-obra ameríndia acode os colonos e, em um primeiro momento, a concórdia entre católicos e huguenotes é instaurada.

Ora, quando os franceses descobrem os Tamoio, seus anfitriões ameríndios dos quais eles dependem muito, a França Antártica se desfaz minada por disputas internas que prefiguram as guerras de religião que vão estourar na França em 1562. Villegagnon impõe uma disciplina de ferro, interdita a “licenciosidade” com os índios, reprime os espíritos rebeldes. Durante muito tempo protetoras, as tribos indígenas, atingidas por uma epidemia, mostram sinais de inimizade. Em fevereiro de 1556, uma parte dos colonos, entre os quais André Thevet, volta para a Europa. No mesmo ano, em plena crise espiritual, Villegagnon apela a Calvino que lhe envia de Genebra um pequeno cortejo de colonos. Eles desembarcam em 1557. Entre eles, Jean de Léry e ministros protestantes. A situação adquire então uma tonalidade irreal: enquanto é exposta a perigos em uma terra desconhecida, a colônia mergulha em desvairadas polêmicas teológicas. A discórdia explode no Pentecostes: Villegagnon rompe com os calvinistas após um debate sobre a eucaristia. O cavaleiro defende com firmeza o dogma enquanto que os protestantes rejeitam “este perverso herético desencaminhado da Fé” e se refugiam em terra firme, num local chamado “la Briqueterie”. De volta à França em 1558, após uma penosa travessia, os protestantes não tardam em relatar as crueldades cometidas contra os índios e os colonos.

Para se justificar, Villegagnon confia o governo do forte a seu sobrinho e volta para Paris em 1559. Pressionados pelos jesuítas, os portugueses, ombrados pelos índios aliados, preparam a ofensiva. Em 15 de março de 1560 a fortaleza é tomada e a aventura colonial se termina. Todavia, a resistência prossegue até 1567 e o desmantelamento não põe um fim à presença francesa. As incursões corsárias e o comércio ilegal continuam, e a memória da França Antártica inspira a experiência da França Equinocial.

Guerra panfletária e paixão crítica

O período dos franceses no Brasil deu origem a toda uma literatura. Se panfletos escarnecem sem demora a traição de Villegagnon (Richer), duas obras maiores fazem descobrir a riqueza e a singularidade do novo mundo.

Já em 1557 o frade franciscano André Thevet, futuro cosmógrafo do rei, publica Les singularités de la France Antarctique, um livro saboroso cujo sucesso é tão fulgurante quanto controverso. Ele oferece um quadro ilustrado dos recursos animais e vegetais, mistura maravilhas e traços culturais, dá uma visão idílica da natureza tropical saudada pelos poetas da Plêiade. É um dos primeiros monumentos etnográficos da Era dos Descobrimentos. Jean de Léry se empenha em contestar as mesquinharias e calúnias lançadas contra os genebrinos e responde com seu Histoire d’un voyage faict en la terre du Brésil, publicado em 1578. O olhar é o de um observador privilegiado, impregnado de nostalgia. Léry se recorda da amizade dos selvagens, ressalta os costumes dos canibais, cujo modo de vida ele julga superior. Sucessivamente fascinado, terno e pessimista, ele analisa um mundo cuja complexidade dá origem a reflexões sobre o canibalismo comparado de todas as sociedades. Este “Montaigne dos viajantes” constrói, assim, uma reflexão de uma alta modernidade, saudada por Lévi-Strauss, que vê ali “o breviário do etnólogo”.

Uma ilha do Brasil: utopia e filosofia

Dominados pelo tema da barbárie e da civilização, do inferno e do paraíso, os debates suscitados pela experiência da França Antártica não cessaram de se multiplicar. O horror provocado pelo canibalismo — os trabalhos de Frank Lestringant demonstraram isso — penetra as polêmicas religiosas. Os índios da baía do Rio, galhofeiros e comedores de carne, abrem uma tradição que culmina, no século XVIII, no mito do bom selvagem. A guerra, a colonização, a imperfeição do conhecimento alimentam o relativismo de um Montaigne que, por sua vez, influencia autores tão diversos quanto John Locke, Pierre Bayle, Prévost, o abade Raynal, Diderot, Jean-Jacques Rousseau e Voltaire. A crítica lançada pelas Luzes às intolerâncias vai beber dessas reflexões subversivas. E a experiência selvagem estimula o pensamento: de Claude Lévi-Strauss, de Pierre Clastres… Ela alimenta as ficções entre os dois lados do Atlântico: os românticos; os modernistas; autores contemporâneos que não cessam de reinventar a utopia.

Em resposta a Jean de Léry exaltando a acolhida dos antropófagos, e fazendo eco a Claude Lévi-Strauss – que, em Histoire du Lynx, mostrava que o pensamento mítico americano, ao contrário do pensamento ocidental nutrido de violência, reservava um lugar ao outro —, Jean Baudrillard vê no canibalismo a forma mais sutil, senão a mais acabada, de hospitalidade.

 

Legenda : Fort of Villegagnon in the harbour of Rio de Janeiro. 1813