Uma vez restaurada a estabilidade política na Europa, em 1815, o Conde da Barca, preocupado em atrair talentos estrangeiros para a antiga colônia então elevada à condição de reino ao mesmo nível de Portugal e dos Algarves, em nome do príncipe regente D. João VI, recorre ao seu representante em Paris, o Marquês de Marialva. O sábio Alexander von Humboldt, à época coberto dos louros de sua expedição sul-americana, é consultado e sugere o nome de Joachim Lebreton, secretário perpétuo demitido havia pouco da Académie des Beaux-Arts de l’Institut de France por causa de um discurso bastante polêmico onde ele argumentava contra a restituição das obras “confiscadas” durante as campanhas napoleônicas.

Sem ser artista, este ex-padre se revelara um bom servidor da Revolução e, mais tarde, do Império. Ele congrega um núcleo de criadores, a maioria deles caídos em desgraça desde a Restauração: o pintor acadêmico Nicolas-Antoine Taunay, seu irmão escultor, Auguste, o pintor Jean-Baptiste Debret, o arquiteto Auguste-Henri-Victor Grandjean de Montigny, o gravurista Charles Simon Pradier, acompanhados de engenheiros, técnicos e artesãos, entre os quais Pierre Dillon, o braço direito escolhido por Lebreton para a futura Escola de Belas Artes, François Ovide (artes mecânicas), Charles Levavasseur, os assistentes Louis Meunié e François Bonrepos… Tendo viajado por conta própria (ao que parece, com a ajuda do comerciante carioca Fernando Carneiro Leão), o grupo desembarca no Rio em 26 de março de 1816. No dia 12 de agosto são assinados os contratos oficiais das pensões e é promulgada a criação da Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios, a qual vão se juntar alguns recém-chegados como o músico Sigismund Neukomm, e os escultores Marc e Zéphyrin Ferrez.

Esbarrando em uma série de obstáculos, a existência da escola permanece apenas virtual. À lentidão administrativa e política, junta-se a má vontade do cônsul francês, o coronel Maler, bastante hostil aos antigos bonapartistas, e as divergências internas entre os próprios “missionários”, principalmente entre Lebreton, apoiado por Jean-Baptiste Debret, e Nicolas Taunay. Além disso, as mortes do francófilo Conde da Barca, em 22 de junho de 1817, e, em 9 de junho de 1819, de Joachim Lebreton, vão deixar campo livre às intrigas da parte dos portugueses, de maneira que o decreto de 25 de novembro de 1820 põe à frente da Real Academia de Desenho, Pintura e Arquitetura Civil — criada um mês antes no lugar da Escola de 1816 (nunca instalada) — Henrique José da Silva, secundado pelo padre Luiz Rafael Soyé. Contrariado, Nicolas Antoine Taunay volta para a França no início de 1821, onde ele espera recuperar o prestígio perdido em 1815; é acompanhado de sua mulher e do filho Hippolyte, deixando no Rio mais quatro filhos. Contudo, será preciso esperar até 1826 para que a Academia seja instalada em sua própria casa (concebida por Grandjean de Montigny), e 1831 para que sejam definitivamnte estabelecidos seus estatutos, com base no projeto francês de 1824: ela vai se tornar então Academia Imperial de Belas Artes, um nome claramente distinto do projeto da escola de artes e ofícios inicialmente previsto.

Se ainda hoje no Brasil perduram discussões contestando o estatuto de “missão” conferido ao grupo de artistas franceses, ou lamentando a orientação neoclássica que eles deram à arte oficial da era imperial, é incontestável que este período vivido no Brasil vai acabar por impor sua marca sob vários aspectos. Solicitados através de encomendas oficiais da família real, Grandjean de Montigny e Jean-Baptiste Debret, principalmente, trabalharão na construção de edifícios (como o da Bolsa de Comércio, que passou a ser o da Alfândega e, atualmente, sede da Casa França-Brasil) e na cenografia das grande cerimônias oficiais no Rio de Janeiro.

Além disso, muitos destes artistas e atresãos terminaram por criar família no Brasil ou aí deixar descendentes ou discípulos. É o caso, claro, da família Taunay, da qual Adrien, após ter participado como desenhista da equipe comandada por Louis de Freycinet, vai morrer nas águas do Guaporé durante a expedição Langsdorff, em 1828. Seu irmão Félix Émile será, por sua vez, preceptor do futuro D. Pedro II, antes de ser nomeado diretor da Academia brasileira de 1843 a 1851. Ele terá como filho Alfredo d’Escragnolle Taunay — que vai participar da campanha militar contra o Paraguai e se tornará ilustre como escritor: A Retirada de Laguna (1871), Inocência (1872)… — e como neto Afonso d’Escragnolle Taunay, biógrafo de seu bisavô e historiador da “Missão”. Marc Ferrez, o filho de Zéphyrin, vai se destacar como fotógrafo, arte pela qual o imperador demonstrará um grande interesse. Finalmente, o grande aluno de Debret, Manuel de Araújo Porto Alegre, retomou as rédeas da Academia de 1854 a 1857 e deu, seguindo a linha de seus mestres, uma ampla e decisiva contribuição à vida cultural brasileira deste período (ver artigo sobre a revista Nitheroy).

 

Legenda : Vue d'Olinda. L.-J.-F. Villeneuve. 1835