Esta política cultural e científica empreendida pela França na América Latina se intensifica no Brasil, a partir de 1908, pela atuação de Georges Dumas, porta-voz do Groupement des Universités et Grandes Écoles de France pour les relations avec l’Amérique Latine (1907-1940). Dentre as várias ações da instituição no país, destaca-se a criação do Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura (Rio de Janeiro, 1923) - conduzido por Dumas com apoio do Service des Œuvres do Ministério das Relações Estrangeiras da França - que terá papel decisivo no estreitamento das relações franco-brasileiras. Em São Paulo, por sua vez, o Liceu Franco-Brasileiro e o Instituto Técnico Franco-Paulista, fundados em 1925, abrigarão sistematicamente cientistas e intelectuais franceses. Os laços pessoais estabelecidos entre Dumas e Júlio de Mesquita Filho - líder do grupo do jornal O Estado de S. Paulo e principal mentor do projeto universitário paulista - ao lado da francofilia reinante entre os membros das elites ilustradas brasileiras, são outros fatores a explicar a escolha de franceses para compor o corpo docente da universidade no domínio das humanidades.

Teodoro Ramos, da Escola Politécnica, e Dumas são os responsáveis pelo recrutamento dos integrantes da chamada “missão francesa da USP”, que se desenvolveu em três fases distintas. Em 1934, são contratados professores experientes em universidades e liceus franceses, com o objetivo de abrir os cursos. Dos seis nomes que compõem essa primeira leva - Émile Coornaert (história), Pierre Deffontaines (geografia), Robert Garric (literatura francesa), Paul-Arbousse Bastide (sociologia), Étienne Borne (filosofia e psicologia) e Michel Berveiller (literatura greco-latina) - somente Berveiller e Arbousse-Bastide renovam os seus contratos com a universidade no ano seguinte. Em 1935, o perfil do grupo se altera assim como a duração dos contratos, agora de três anos: trata-se de jovens agrégés, sem experiência no ensino superior, com exceção de Fernand Braudel. Além do professor de história, chegam ao país neste momento: Pierre Hourcade (literatura francesa), Pierre Monbeig (geografia), Claude Lévi-Strauss (segunda cadeira de sociologia) e Jean Maugüé (filosofia). Monbeig e Maugüé permanecem no país até 1944 e 1947, respectivamente, em função da eclosão da guerra. A partir de 1938, Dumas decide convidar docentes mais velhos, como fizera na Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, em 1935. Deste novo grupo de professores fazem parte: Roger Bastide (substituto de Lévi-Strauss), Jean Gagé (no lugar de Braudel), Alfred Bonzon (literatura francesa) e Paul Hugon (economia), que se estabelecerá definitivamente no país.

A obra de Bastide se beneficia das pesquisas realizadas no Brasil sobre folclore, artes, religiões e relações raciais, assim como de distintas tradições intelectuais nacionais, que ele lê e comenta. As religiões afro-brasileiras, um de seus principais temas de interesse, foram trabalhadas de duplo ponto de vista: de um ângulo sociológico, como no artigo de 1945, “Structures sociales et religions afro-brésiliennes” e no livro Les religions africaines au Brésil (1960), entre outros, e de um prisma mais etnográfico, por exemplo, em Le candomblé de Bahia (1958). A curiosidade pela compreensão das relações entre negros e brancos, precocemente despertada, conhece novo fôlego nos anos 1950, quando ele coordena com Florestan Fernandes uma pesquisa em São Paulo, sob os auspícios da UNESCO. A partir dessa experiência escreve diversos artigos, entre os quais “Les relations raciales au Brésil” (1957), de modo a pensar a inserção do negro na estrutura social e o racismo.

 

Legenda : Méridien pour toutes le Villes-Capitales du Globe. L.-A. Boulanger. 1835