ERE – IOUBE (ierejúpe) – Tu vieste
Pa-aiout (pá, ajur) – Sim, eu vim

Um vocabulário tupi-francês, compilado por um certo Jehan Lamy por volta de 1540, época de uma intensiva atividade francesa em relação ao Brasil, lança uma luz sobre a natureza dos contatos entre as populações ameríndias e os marinheiros naquela primeira metade do século. Esta “langaige du brésil” — ou “língua do Brasil” —, comporta termos ou locuções tupi-guarani seguidos da tradução em francês. Excluindo a presença de palavras indígenas em documentos anteriores (o do armamento da nau Bretoa, por exemplo) e da lista inserida no diário de Pigafetta, este guia de conversão é atualmente o mais antigo testemunho linguístico do tupi e pode ser considerado como uma espécie de pidgin.

É difícil conhecer a natureza dos contatos entre os franceses e os ameríndios. Eles oscilam sem dúvida entre o estilo complacente, necessário ao negócio, e o temor, ou mesmo ameaça. A comunicação não se reduz porém ao simples comércio: as ferramentas de sonoridade lusitana surgem neste embrião bilíngue, sem esquecer as referências à corporação, à estrutura social e à cultura tupinambá. Não menos surpreendentes são os termos que parecem responder à curiosidade ameríndia. Em 1540, a riqueza deste vocabulário é certamente obra dos intérpretes, ou intermediários, os jovens abandonados em terra estrangeira ou fugidos de navios onde normalmente eram alvos de chacotas ou maus tratos. Acolhidos pelos ameríndios, eles adotavam seus costumes e podiam assim servir de intermediários quando os navios franceses chegavam para traficar nas costas litorâneas.

Proscritos, fugitivos, grumetes, órfãos, mestiços, cativos, mercadores, marinheiros, chefes de guerra, oficiais, religiosos, letrados… tantas facetas de intermediários e intérpretes. A pesquisa recente se interessou por estes passadores sem os quais a permanência na costa e a penetração no interior teriam sido impossíveis. Ela também tentou atualizar as estratégias e táticas desenvolvidas para o estabelecimento, semi-oficial no início, e em seguida oficial, do estatuto de “língua” nas sucursais comerciais, nos regimentos militares, a bordo de esquadras, nas companhias de comércio e de navegação, no seio da administração colonial ou da instituição religiosa.

Além do seu aspecto documentário, esta « língua » pode também ser lida como o embrião de um relato de viagens, uma espécie de itinerário registrando acontecimentos e inventariando situações e papéis onde o afeto e a ideologia se manifestam. Muitos relatos de viagens recheiam seu corpo textual com palavras indígenas na preocupação de atestar a realidade de uma andança por terras longínquas. Às vezes estes termos são coletados e dispostos em apêndice nos relatos, ou então vão enriquecer as coleções de viagens, as artes de navegação, as enciclopédias, os tratados descritivos, a documentação administrativa e náutica. Mergulhando o leitor em uma língua e um mundo diferentes, a palavra selvagem torna-se assim, à maneira de um topônimo, o demarcador de um território, o modo de locomoção em um universo, ou ainda o signo abrindo para o prazer erudito de uma reflexão sobre Babel.

Revistas, compiladas, podadas ou alargadas, estas ilhotas linguísticas derivam interminavelmente, pois não são nunca exaustivas e se aperfeiçoam à medida que as trocas se intensificam. Produtos dos manuais de conversação ou vocabulários poliglotas da Idade Média, elas preparam os futuros léxicos, gramáticas e manuais linguísticos. Pondo em cena o comércio em uma inquietante transparência, estes rastros de algures eliminam os turbilhões da história e as fraturas. Quanto aos intérpretes, ainda que por vezes suspeitos, porque “transfronteiriços”, eles são essenciais e, graças às suas competências, eles serão os mediadores e tradutores dos viajantes. Participam de uma cadeia de traduções que abrem e direcionam o caminho, garantindo a conversão dos seres e do mundo em coisas concretas (pesos, medidas, vocábulos), transformam os gostos, o imaginário, os indícios culturais e materiais. Terrenos da cordialidade, mas terrenos ambíguos e desiguais.

A pequena lista das palavras, aquele tupi distante, oferece assim um verdadeiro prazer de leitura, um estrondo bruto bem afastado dos discursos colocados na boca dos ameríndios por um Jean de Léry na baía da Guanabara ou ainda daquela famosa conversa, que restou para sempre desconhecida, que em 1562, em Rouen, Michel de Montaigne manteve com um chefe ameríndio

Por outro lado as trocas então se baseiam fundamentalmente na oralidade e na voz. Apesar das dificuldades de compreensão, as ambiguidades e as reduções linguísticas que abrem caminho nos vestígios escritos, muitos viajantes e jesuítas manifestarão uma surpresa não desprovida de admiração diante de uma eloquência selvagem onde as arengas dos caciques, bem elaboradas, parecem brotar de um tratado de retórica. Algumas destas trocas ou palavrórios denunciam, com frequência de forma irônica, as excentricidades dos europeus. Colocar na boca do outro um discurso que contesta a política da sujeição colonial ou que aponta a cobiça dos viajantes é de fato um impulso clássico da cultura grega e latina, uma ficção ressuscitada no Renascimento para tornar visível o que a norma e a ordem cobrem com um véu. Textos portugueses colocarão em cena, de preferência, distantes asiáticos criticando um povo sem domicílio fixo que “passa o seu tempo a errar por todos os lados” trocando “as coisas que eles têm por aquelas que não têm”. O olhar do ameríndio ou do estrangeiro, que vê e que não compreende ou que só compreende demais, se manifesta assim nestes clamores, estes fragmentos de textos que falam na verdade de uma preocupação de comunicação e de um desejo de prestígio internos, europeus.

 

Legenda : Voyage pittoresque et historique au Brésil. J.-B. Debret, 1834-1839