A expedição Langsdorff (1821-1829)

Tendo embarcado, aos 20 anos, em uma fragata francesa saindo da Europa, Hercule Florence, nascido em Nice em 1804, chega ao Rio de Janeiro em abril de 1824. Emprega-se sucessivamente junto a dois imigrantes franceses; um deles, Pierre Plancher, é um livreiro-impressor, fundador do Jornal do Commercio. Mas, já em 1825, seu gosto pela aventura o leva a responder ao anúncio do barão Georg-Heinrich von Langsdorff (1774-1852), médico e naturalista alemão, que preparava uma das mais ambiciosas expedições científicas no Novo Mundo, e estava à procura de um pintor.

O barão von Langsdorff, então cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro, já viajara muito. Percorrera o sul do Brasil – afirmando tratar-se “da mais bela e mais rica região do mundo” – e publicara uma monografia para servir de guia àqueles que desejam ali se estabelecer.

O projeto, generosamente dotado pelos czares Alexandre I e, depois, Nicolau I, tem como objetivo explorar por vias fluviais o interior do país, do Mato Grosso à bacia do Amazonas. A equipe conta com cerca de quarenta homens, entre os quais um pequeno grupo de naturalistas encarregados de coletar, descrever e classificar todas as amostras da fauna e da flora encontradas. Se a natureza é o seu campo de prospecção privilegiado, nem por isso eles deixam de registrar abundantes observações etnográficas relativas aos índios e aos caboclos. Hercule Florence, que será o cronista dessa missão, é recrutado na qualidade de segundo desenhista, pintor e topógrafo. O primeiro é um dos filhos do artista Nicolas-Antoine Taunay, que chegara ao Rio de Janeiro com a “Missão francesa” de 1816. Ao lado deles: o botânico alemão Ludwig Riedel, o zoólogo francês Édouard Menetriès e o astrônomo russo Nestor Rubtsov.

O diário de bordo de Hercule Florence reflete esse espírito autodidata, herdeiro dos Enciclopedistas, instruído pelos manuais de ciências e técnicas. Suas aquarelas e seus croquis a bico de pena revelam um admirável domínio do desenho botânico e zoológico. O corpus iconográfico reunido ao longo da viagem constitui o conjunto mais coerente e mais exaustivo sobre as tribos indígenas da época.

A opulência da natureza fascina Florence e atiça sua imaginação. Assim, a palmeira bocaiuva inspira-lhe “uma sexta ordem arquitetônica, que receberia o nome de ordem brasileira, ou ordem palmiana”. E o estudo das vocalizações animais o leva a conceber um sistema de transcrição fundado nas convenções utilizadas na música clássica. Seu método, que ele batiza de zoofonia, seduzirá os pesquisadores que, um século mais tarde, lhe atribuirão o título de “pai da bioacústica”.

Da zoofonia à fotografia

Quando, em 1829, termina a árdua expedição Langsdorff, na qual Adrien Taunay morreu afogado, Florence se instala na pequena cidade de São Carlos (hoje Campinas), na província de São Paulo. Casado, pai de uma numerosa descendência, bem-sucedido fazendeiro, nem por isso abandona suas pesquisas. Comece então uma década criativa e fecunda, marcada por experimentos. Atento à divulgação de suas descobertas, redige monografias, artigos para a imprensa, mantém abundante correspondência com outros cientistas e transmite seus trabalhos a academias.

Seu gosto pela pintura dos céus, pelas transparências e pelos claros-escuros, o faz observar o papel determinante da luz. Lança-se então a pintar “quadros transparentes” e realiza um “Atlas celeste” composto de 32 aquarelas de nuvens.

Desejoso de imprimir seu tratado de zoofonia e sem nenhuma oficina tipográfica nas redondezas, inventa um novo sistema de reprodução, a poligrafia, graças à qual realiza impressões simultâneas das cores primárias. Cria em seguida um “papel inimitável”, suscetível de dar ao Brasil uma moeda única.

Mas, de todas as suas experiências pioneiras, a mais notável é a em que imaginou um processo de fixação de imagens. Recorrendo ao princípio da câmera escura e utilizando substâncias químicas fotossensíveis, ele obtém inicialmente negativos e depois, em 1833, conclui uma invenção que intitula, bem antes de o termo ser utilizado na Europa, “Fotografia ou Impressão à luz solar”. Do interior profundo de sua província brasileira, Hercule Florence precederia assim de seis anos as primeiras tentativas de Niepce e Daguerre, datadas de 1839.

Em 1875, Alfredo d’Escragnolle Taunay, um neto do pintor Nicolas Taunay, traduziu para o português o diário redigido durante a expedição Langsdorff e publicou-o na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Hercule Florence, que se autodenominara “o novo Robinson Crusoé”, tanto era consciente de seu isolamento cultural, teve pois a satisfação de ver seu nome escapar ao esquecimento pouco tempo antes de seu falecimento, em 1879. Hoje, esse pesquisador atípico, esse humanista apaixonado, ainda é muito celebrado em seu país de adoção, o Brasil, onde estão conservadas a maioria de suas obras.

 

Legenda : Expédition au Brésil de la mission russe du Ct Langsdorff : 1824-1829, album de croquis dessinés par Hercule Florence.