As viagens pelo mundo (Polinésia, Japão, África, Ásia e Américas), e o aprendizado de diferentes culturas a elas associado, estão na base da educação do olhar do fotógrafo; viagens que se associam ao manejo regular da Rolleiflex aprendido com Pierre Boucher (1908-2000); às experiências na agência fotográfica Alliance Photo, fundada em 1934 com um grupo de amigos; às colaborações regulares para revistas e jornais europeus e americanos (Paris-Soir, Daily Mirror, Life, Zürcher Illustrierte, Match, Argentina Libre etc.); ao trabalho no laboratório fotográfico no Musée d’Ethnographie du Trocadéro (futuro Musée de l’Homme), entre 1935 e 1937, onde conhece Paul Rivet, Alfred Métraux, Michel Leiris e muitos outros.

O Brasil representa um momento de inflexão em seu percurso. A descoberta das religiões de matriz africana – xangôs, vodus e candomblés –, assim como as trocas efetuadas nos círculos intelectuais locais (com Carybé, Vivaldo da Costa Lima, Jorge Amado, Mário Cravo e com o “povo de santo”) redirecionam seu itinerário e produção de forma radical. As viagens, antes realizadas ao sabor das oportunidades, adquirem agora eixo preciso: os cultos africanos e seu trânsito entre os dois lados do Atlântico. As imagens, por sua vez, seguem a rota desenhada pelos escravos que aportam nas costas brasileiras e depois pelos ex-escravos e retornados que, por meio de seus périplos, transplantam ritos, cultos e cosmologias de um continente a outro. A vocação etnográfica, entrevista nos ensaios fotográficos da região andina (Peru e Bolívia) entre 1942 e 1946, se acentua, a câmera agora a serviço da descrição e interpretação de formas e manifestações culturais. A cidade de Salvador – movimento das ruas, desenho de fachadas, corpos e rostos – é ela também objeto do interesse do fotógrafo-etnógrafo, ao longo de seu período brasileiro, mostram os Retratos da Bahia.

É a partir da experiência brasileira, e da África por meio dela redescoberta, que a escrita se introduz na vida de Verger, fazendo com que os textos passem a conviver com os registros fotográficos. A bolsa de estudos concedida pelo Institut Français d'Afrique Noire (IFAN) para estudar as origens dos cultos africanos implantados no Brasil, em 1948, ocupa lugar fundamental nesse novo aprendizado expressivo, que tem como primeiros resultados o artigo “Une sortie de ‘iyawo dans un village nagô au Dahomey” (Porto Novo, 1951) e os livros Orixás (Salvador, 1951) e Dieux d’Afrique, primeiro trabalho mais sistemático sobre a cultura ioruba, composto de textos e imagens (Paris, 1954). Iniciado babalaô e renomeado Fatumbi pelo ifá, em 1953, Verger intensifica seu contato com a África, produzindo um grande número de fotografias e análises escritas das culturas e religiões africanas e afro-brasileiras – divindades, cerimônias, tradições orais, adivinhação, etnobotânica etc. –, em função dos intercâmbios entre África ocidental e Brasil, e da comparação com Cuba, Haiti, Suriname e Guiana Francesa. O reconhecimento acadêmico de seus trabalhos pode ser aferido pelo ingresso no CNRS em 1962 e pelo título de doutor a ele concedido pela Sorbonne, em 1966 (tese sobre o tráfico de escravos entre o golfo do Benin e Bahia nos séculos XVII ao XIX, publicada em 1968).

Impossível dar conta, em breve apanhado, da produção de Pierre Verger que, indica Ângela Lühnig, surge em função dos diversos deslocamentos e inserções, editada em diversas línguas e em veículos os mais variados, desde a década de 1930. Produção que se movimenta entre o registro imagético (exercitado precocemente) e narrativo (atividade penosa, ele dirá), um alimentando o outro. Os instrumentos, narrativo e fotográfico, são mobilizados em favor das pesquisas e estudos, mas, sobretudo, com vistas à recuperação das relações entre África e Brasil, de modo a fazê-las reviver. Missão que se desdobra no projeto da Fundação Pierre Verger (1988), sediada na casa comprada na Vila América, a mais perfeita tradução da articulação entre vida e obra.

 

Legenda : O reino de Iemanja. O Cruzeiro. 1947