Com a sabida consolidação das estruturas de poder em que a figura do homem branco europeu associou-se sempre às mais altas posições, seja em tempos coloniais, imperiais e até mesmo na república, consolidaram-se também os signos culturais europeus como símbolos de distinção e nobreza.

Esse processo de afirmação da cultura européia no Brasil se intensificou entre fins do século XIX e início do XX. Nesse período, com o continuado acúmulo de riqueza e com a conseqüente consolidação das elites, se intensificaram as trocas culturais entre os lados do Atlântico, o que permitiu um intercâmbio maior e mais veloz de pessoas, idéias e bens entre o velho e o novo mundo. Foi diante deste contexto que o desenvolvimento artístico, científico e tecnológico da sociedade francesa se tornou para a brasileira um referencial de civilização e progresso em detrimento dos costumes “bárbaros” e rudes das tradições populares de então, geralmente relacionadas às populações pobres, rurais ou negras, de cuja sombra a maior parte das elites pretendia se desvincular.

O afrancesamento dos costumes, dos modos de viver e conviver, aceito e até mesmo perseguido pelos setores urbanos em ascensão no império e na jovem república teve aspectos variados. Seus matizes percorreram tanto a vida dos indivíduos quanto o âmbito estatal, percebidos principalmente pela mudança de hábitos de boa parte da população e pela promoção de políticas voltadas para a transformação dos espaços públicos. De uma forma geral, um sentimento de urbanidade passou a nortear a existência das pessoas.

Uma das formas de difusão desse ideal de civilidade foi a publicação de periódicos dedicados à moda e de manuais de etiqueta, como os de autoria de Carmem d’Ávila, Horace Raisson ou de Pìerre Boitard. Esses guias de comportamento versaram sobre as formas mais adequadas de se estar em sociedade, sobre qual a melhor forma de comer, vestir, falar, manifestar-se, sempre primando pela polidez característica dos modos franceses.

Outra das mais evidentes mudanças foi sentida nas amplas reformas realizadas para o melhoramento dos espaços públicos urbanos, que alteraram profundamente a aparência e a estrutura das cidades, das suas vias e áreas de lazer, do seu traçado e seu saneamento. Essas transformações percorreram em maior ou menor grau diferentes cidades brasileiras. Em Pernambuco, por exemplo, pipocaram em Recife muitas novas construções, como as do arquiteto Louis Vauthier, responsável pelos projetos do Teatro de Santa Isabel e de aperfeiçoamento do porto. Mas talvez seja o Rio de Janeiro um dos melhores ícones deste fenômeno.

Na capital, entre bulevares e jardins, cortiços inteiros foram removidos, casas foram derrubadas, a vadiagem foi criminalizada e mendigos e desocupados de toda espécie foram presos numa “assepsia” geral do espaço público. Grandes e largas avenidas foram abertas sobre as antigas habitações, águas foram canalizadas e a população mais pobre empurrada para áreas mais longínquas do centro, novos prédios, como o da Biblioteca Nacional, foram erguidos à moda da arquitetura francesa. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro é um bom exemplo da nova forma de viver permeada de urbanicidade: com um projeto arquitetônico inspirado na Ópera de Paris, viu desfilarem por seus tapetes damas e cavalheiros de novos hábitos, refinando seu gosto pela arte e desenvolvendo o costume de freqüentar espetáculos de dança, música e ópera.

Conhecidas também como a Belle Epóque brasileira, essas reformas foram largamente retratadas através de crônicas, fotografias, gravuras e livros.

Entre os mais célebres espectadores que registraram a nova face da cidade estão Augusto Malta, Marc Ferrez, Juan Gutierrez, João do Rio.

 

Legenda : Botafogo: Rio de Janeiro. XXe s.