Na segunda metade do século XIX, intensificou-se a presença de tipógrafos e livreiros, principalmente no Rio de Janeiro. A cidade continuou sendo uma espécie de Meca dos trópicos a ser explorada. A denominação de “tratantes em livros”, mais comum nas primeiras décadas do século, vinha sendo substituída pouco a pouco por livreiros, suas lojas já deixavam de acumular funções e abandonavam a venda de ungüentos, e de secos e molhados, incorporando às montras objetos de papelaria.

A profissionalização de livreiros e impressores no Brasil foi um processo lento. A Europa, sobretudo a França, tinha um papel hegemônico indiscutível, e o barateamento da produção levou muitos dos agentes do mercado editorial brasileiro a imprimir seus livros em Paris. No entanto, o mercado brasileiro se mostrou atrativo, pela novidade que representava e também pelas brechas legais que permitia o consumo de livros em francês, mesmo aqueles que estariam mais vulneráveis à censura na Europa.

A incorporação de novas tecnologias na navegação e a facilidade de trocas comerciais a partir da assinatura da convenção postal entre diversos países, inclusive o Brasil, foram fatores relevantes para baratear os custos de transporte e dar ao livro francês um destaque universal. Baptiste-Louis Garnier, um dos mais importantes livreiros e editores franceses no Brasil, chegou ao Rio de Janeiro em 1844. Era o mais moço dentre quatro irmãos que já tinham se estabelecido com lojas em Paris, desde 1828.

Os irmãos Auguste e Hippolyte mantiveram uma sociedade com Baptiste-Louis, e suas experiências anteriores foram fundamentais para o sucesso dos investimentos no Brasil. Na França, a sociedade dos irmãos produziu obras de cunho erótico que certamente tiveram um papel significativo nos lucros, mas que se constituíam em risco, tendo-se envolvido em situações policiais, conforme demonstram alguns estudos.

No Brasil, produziu o que aparecia em seus catálogos e nos anúncios do Jornal do Commercio como "Livros para cavalheiros", com textos de autores como Paulo Mantegazza e George Ohnet. Mas, os investimentos focalizaram autores brasileiros e ampliaram a valorização da impressão de livros brasileiros na França. Novidades, já implantadas na Europa, como o formato francês do livro, foram introduzidas por Garnier, como também os preços de capa fixos, e a exibição de lançamentos nas vitrines.

Baptiste-Louis foi o editor de Machado de Assis, e também de um grande número de autores nacionais, como José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, e também Gonçalves de Magalhães, Araújo Porto Alegre, Aluísio de Azevedo, Olavo Bilac, tornando-se a principal casa editorial brasileira. Publicou um grande número de compêndios para a instrução pública, adquiriu grande número dos direitos de edição de romances de autores iniciantes, divulgou poesia, livros científicos e escolares. Intensificou traduções e foi consolidando o sucesso editorial no Brasil.

Foi agraciado com o título de Oficial da Ordem da Rosa, em 1867, que era uma importante comenda concedida após demanda, desde que comprovados os serviços relevantes prestados à cultura imperial. Também foi reconhecido com o título de livreiro-editor do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, além de ser empresa fornecedora da Casa Imperial.

Por muito tempo manteve sociedade com os irmãos na França, e em 1852, passou a se identificar como Livraria B.-L. Garnier, mas comercializava títulos da livraria parisiense Garnier Frères. À medida que se consolidava, estabeleceu-se em vários endereços no centro do Rio de Janeiro, e em 1878, mudou-se definitivamente para a rua do Ouvidor n. 71. Mais tarde, no alvorecer do século XX (1901) inaugurou uma magnífica sede, neste mesmo endereço, planejada pelos arquitetos Belissime e Pedarieu. Com a morte de B.-L. Garnier, em 1893, a livraria retorna por direito de herança, a seu irmão Hippolyte, da Garnier Frères.

Foi considerado por muitos estudiosos do livro como o mais importante editor do século XIX. Luiz Edmundo, referiu-se a Livraria Garnier, palco diário de encontros entre diversos escritores e literatos, como a “sublime porta” e a relacionava à admiração que havia quanto ao espírito francês: “persistimos franceses, pelo espírito e, mais do que nunca, a diminuir por esnobismo tudo que seja nosso. (...) Bom, só o que vem de fora. E ótimo, só o que vem da França.”

 

Legenda : Contrato celebrado entre Bernardo Joaquim da Silva Guimaraes e p editor B. L. Garnier para a 1° edição da obra O Garimpeiro. B. Guimarães. 1870