É por isso que, a contrario, não podemos ilustrar melhor o caráter fundamentalmente equívoco e assimétrico, com seus sensos, contrassensos e incompreensões, circulações interculturais, do que por meio das relações que mantiveram os brasileiros e Blaise Cendrars (1887-1961).

A história começa em Paris em maio de 1923. Cendrars, já um célebre escritor, conhece Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Um desejoso de se afirmar junto aos meios artísticos parisienses, a outra reticente às vanguardas e ávida de novos ares. Também vem bem a calhar o convite para ir a São Paulo, que Paulo Prado lhe faz chegar por meio de Sérgio Milliet. Os poemas de Feuilles de route assinalam alguns instantâneos da viagem a bordo do Formose, a escala carioca onde esperam-no os modernistas do Rio em 5 de fevereiro de 1924, e, no dia seguinte, o desembarque em Santos, os amigos paulistas…

De fevereiro até o seu retorno à Europa, em agosto, Cendrars é um porta-voz da modernidade. Suas conferências são motivo de ricochetes polêmicos na imprensa. No início de março ele assiste, com Oswaldo, Tarsila e Olívia Guedes Penteado, ao carnaval do Rio, o que é matéria de reportagens para a Illustration française e o Excelsior. Durante a semana santa, em companhia de seus amigos, aos quais se junta notadamente Mário de Andrade, ele percorre, entusiasmado, a Minas colonial. As visitas à fazenda do Morro Azul (cf. a seção « São Martinho » de Pau Brasil, de Oswald de Andrade), do excêntrico Luís Bueno de Miranda, deixarão uma marca profunda que reaparecerá tardiamente em « La Tour Eiffel sidérale (rhapsodie de la nuit) », terceiro capítulo do Lotissement du ciel (1949).

Os temas e as técnicas de Cendrars, Oswald e Tarsila parecem então se interpenetrar : cenas tomadas em estado puro, condensação da imagem ; arte do desvio, do poema anedota ; ilusão fulgurante da imediação, da simultaneidade das sensações ; a velocidade do fragmento, a simplicidade do traço… De volta a Paris, Cendrars consegue publicar os poemas de Pau Brasil na editora Au Sans Pareil, a mesma por onde saiu Feuilles de route ilustrada com desenhos da « mais linda paulista do mundo », conforme a futura dedicatória de « La Tour Eiffel sidérale ». Em 1926, ele escreve no catálogo da exposição de Tarsila da galeria Percier pela qual ele intercedeu… A proximidade vai se afrouxar ao longo do tempo. Mas além das revisões amargas contra a « modernice » (Cendrars) ou os « palhaços da burguesia » (Oswald de Andrade), que são devidas tanto à independência orgulhosa ou ofuscante dos egos criadores quanto aos caminhos divergents seguidos por uns e outros, ficarão estes fascinantes momentos de porosidade poética, algumas fidelidades e a marca indelével do Brasil na obra cendrarsiana.

Dentre as amizades de longo curso figura em lugar especial Paulo Prado, que recebe Cendrars ainda mais duas vezes : para uma segunda estadia, de janeiro a junho de 1926 ; e uma terceira e última de setembro de 1927 a janeiro de 1928. A crise de 1929 afeta a fortuna do mecenas, mas a dedicatória que abre Le Brésil (1952) prolonga, para além do desaparecimento do amigo em 1943, o terno reconhecimento ao autor de Retrato do Brasil, que Cendrars teria projetado traduzir e ao qual deve muito o seu ensaio acompanhando as 105 fotos de Jean Manzon. Outros laços persistem ou se constroem, através de homenagens, recordações, cartas e encontros : Manuel Bandeira, René Thiollier, Yan [João Fernando] de Almeida Prado, Ribeiro Couto…

O Brasil nutriu os últimos poemas de Cendrars, antes que a poesia cedesse lugar ao romance, à prosa… Inspirou vários contos, crônicas e reportagens (ver por exemplo « Métaphysique du café », in Aujourd’hui, 1931 ; Histoires vraies, 1937 ; « Fébronio (Magia Sexualis) », in La vie dangereuse, 1938 ; D’Oultremer à Indigo, 1940 ; Trop c’est trop, 1957), reaparece nas memórias (Une Nuit dans la forêt, premier fragment d’une autobiographie, 1929 ; L’Homme foudroyé, 1945 ; Bourlinguer, 1948 ; Le Lotissement du ciel, 1949) e na tradução de Forêt vierge de Ferreira de Castro (1938) ou na apresentação da edição francesa de Menino de engenho, de José Lins do Rego (1953). Ao que seria preciso acrescentar os projetos falhados : filme, balé, livros sobre Aleijadinho e Lampião.

Na verdade, estas divisões entre gêneros variados, distinguindo o real, o vivido e o sonhado, não dão conta da complexidade de um obra nascida na « câmara negra da imaginação ». Segunda pátria espiritual e Utopialand (duas caracterizações subentendendo duas lógicas quase opostas), o Brasil serviu de território e laboratório, foi revelador ou fixador. Mas a letra do texto, esta não se fixa nunca, a superficialidade do clichê exótico, como um logro, mascara os fundos falsos. Onde lemos a espontaneidade, reescreve-se às vezes Saint-Hilaire ou Luís de Orléans e Bragança ; onde vemos a efabulação, pode ser que se trate de recomposição. Cendrars torna instáveis os topoi dos quais ele se serve, seus entusiasmos como seus vereditos, as lições que dá. Ele cultiva seus segredos, encanta-se com a magia das imagens para finalmente desconfiar dela. Cendrars não fica para trás.

 

Legenda : Blaise Cendrars. R. Doisneau. XXe s.