O movimento brasileiro participaria dessa apropriação. Um ensaio publicado em Nitheroy, revista brasiliense, editada em Paris, proporia uma Literatura nacionalista, através de uma clara interlocução com propostas francesas sobre a importância da inspiração na natureza e nos costumes locais para se escrever Literatura. Epígrafes, alusões e paráfrases de obras francesas inspiravam o Romantismo brasileiro: textos indianistas, cantos anti-escravistas, poemas às musas etéreas e sensuais, obras joco-sérias e satânicas. A protagonista do romance brasileiro LucíolaDama das camélias, romance francês.

A aproximação utópica que o Romantismo promoveu com a natureza seria questionada posteriormente, sem que as relações literárias franco-brasileiras esvaecesse. No Parnasianismo, adotam o mesmo nome para o movimento e exploram temáticas similares. O culto a forma é absoluto, sempre buscando rimas perfeitas e imagens claras, mesmo em temas noturnos. O Realismo-Naturalismo pretendeu realizar uma narrativa escrupulosa da realidade e da natureza, aproximando a arte literária de um palavreado não sentimental, tomado da ciência e da técnica, não escamoteando nem a cena escabrosa, nem o termo chulo. Os problemas trazidos por essa opção seriam muitos. Na França, Madame Bovary levaria seu autor aos tribunais. No Brasil, O Mulato causaria constrangimentos na cidade em que a história se desenrola, São Luís, Maranhão. Romances naturalistas seriam lidos como pornografia, em pleno século XX. Na arte, a idéia de filiação estética restritiva seria duramente questionada no final do século XIX. Obras como, Chrysalidas e Memórias pósthumas de Brás Cubas de Machado de Assis superariam qualquer rotulação dessa ordem. Além disso, os grupos e movimentos se superpõem no tempo e no espaço, em pleno sucesso dos parnasianos e realistas-naturalistas, surgiriam os grupos Decadentista e Simbolista.

Ao rigor da métrica, às imagens cruas e ao vocabulário cientificista, os simbolistas proporiam musicalidade em rimas, palavreado e imagens com alto teor simbólico. Broquéis, peça inaugural da escola, começaria com versos baudelairianos, reafirmando um diálogo com autores franceses, tal qual seus opositores faziam. No grupo, há um caso radical de francofilia: Alphonsus de Guimaraens, que jamais colocara os pés fora do país, escreveria poemas em francês. Seu livro, Pauvre lire seria publicado, em tiragem reduzidíssima, em 1921. Não seria o único caso assim na literatura brasileira. Um conhecido romance naturalista apresenta uma dedicatória a Zola, chefe da escola, escrita em francês. Também Joaquim Nabuco afirmaria preferir aquele idioma para escrever. O periódico Ba-ta-clan, editado no Rio de Janeiro, abordando assuntos brasileiríssimos, vinha escrito todo em francês.

Na mesma época, os decadentistas se identificariam com o escabroso dos naturalistas e com o exotismo dos simbolistas, apenas trocando o misticismo, dos últimos, por um cinismo todo próprio. Seu discurso se constituiria num diálogo extremo com os paradoxos da modernidade. O grupo encontraria seu emblema no texto baudelairiano sobre o dandismo, ao qual obedeciam nas letras e na vida, como revelariam as memórias póstumas de um dos decadentistas mais conhecidos. O primeiro a publicar livros no poeta maldito seria Fountoura Xavier. Entretanto, Canções da Decadência e Peccados, publicados anos depois, são obras reconhecidas como mais importantes para o movimento.

Central para a configuração das estéticas de fim-de-século seria a escritura dos "cronistas da vida moderna", reunidos em torno da imprensa. Jornalistas, romancistas e poetas, eles pareciam simples imitadores da frivolidade dândi e autores de textos repletos de maneirismos exógenos. Todavia seus textos revelariam as contradições da cidade, sua noite, suas ruas, as pequenas passagens da vida cotidiana, a favela. Reportagens, crônicas e romances constituintes da modernidade que o século XX anunciava.

 

Legenda : Fonfon número 40. 1908