Os pilotos e cosmógrafos portugueses que, nos séculos XV e XVI, abriram as rotas de navegação interoceânicas no Atlântico, Índico e Pacífico, nem sempre o fizeram em nome da monarquia portuguesa. Da mesma maneira, cartógrafos genoveses, venezianos, flamengos, boêmios, catalães e, inclusive, pilotos árabes, frequentemente, serviram os reis ibéricos na primeira fase da expansão mercantil europeia. Em diferentes circunstâncias, os pilotos, matemáticos e cosmógrafos de origem portuguesa também atuaram na corte dos Habsburgo, como foi o caso de Fernão de Magalhães, Pedro Reinel, Jorge Reinel, Diogo Ribeiro, João Batista Lavanha e Pedro Teixeira.

Restrições permeáveis

No entanto, por razões econômicas, o receio da concorrência comercial era constante, tanto assim que o rei português Dom Manoel I procurou restringir a difusão das técnicas náuticas, evitando a venda de caravelas e punindo os pilotos e cosmógrafos que fossem trabalhar para os reis estrangeiros. A política de restrição de impressão e circulação dos mapas foi uma tentativa de enfrentar a competição com as monarquias rivais; mas, paradoxalmente, a preocupação com a difusão dos roteiros náuticos, livros de bordo e cartas de marear manuscritas fez com que dados geográficos fossem ainda mais cobiçados.

O posicionamento exato da linha de Tordesilhas nos planisférios foi um dos grandes objetos de controvérsia entre os cosmográficos e matemáticos da época. O Tratado assinado entre Portugal e Espanha com intermediação do Papado, em 7 de Junho de 1494, estabeleceu um meridiano imaginário que dividiu o mundo em duas grandes metades sob jurisdição exclusiva das coroas ibéricas, a despeito das pretensões dos demais monarcas europeus. O rei francês, Francisco I (1515-1547), foi o primeiro a contestar a partilha do mundo mediada pelo Papado, alegando ironicamente a inexistência de uma cláusula dessa natureza no Testamento de Adão.

Um suporte oficialmente declarado

O interesse oficial em apoiar os mercadores de peles, animais e madeiras tintoriais em terras distantes foi estimulado principalmente pelas viagens de Jacques Cartier e de Roberval De La Rocque para América do Norte, entre 1534 e 1543. Francisco I chegou a receber do piloto português João Lagarto duas cartas náuticas e um astrolábio. Durante os reinados subsequentes, o interesse dos monarcas franceses pela expansão marítima aumentou significativamente como se pode acompanhar pelos trabalhos de Pierre Desceliers, Jehan Roze, Nicolas Desliens, André Thevet, Guillaume Le Testu, Jacques de Vau de Claye e Nicolas Vallard.

A cartografia luso-normanda

Assim, ao longo do século XVI, a cidade portuária de Dieppe (na Normandia), tornou-se um importante centro de conhecimento náutico, atraindo pilotos, cosmógrafos, construtores navais e artistas oriundos de várias partes da Europa. Ali, também estiveram muito presentes os pilotos e cosmógrafos portugueses que contribuíram para o aprimoramento dos roteiros de navegação, das tabelas astronômicas, dos regimentos náuticos e das técnicas de construção naval.

Armando Cortesão argumenta que se formou uma verdadeira “escola” de cartografia luso-normanda com características muito particulares desde a primeira metade do século XVI. A interação entre a expertise náutica portuguesa e normanda pode ser evidenciada na presença de topônimos portugueses nos planisférios e cartas geográficas produzidas pela escola Normanda e Bretã. Para o historiador da Monumenta Portugalia Cartographica, possivelmente com algum exagero, a cartografia francesa da América Setentrional teve origens lusitanas, uma vez que dos portos da Normandia e da Bretanha saíram expedições para América do Norte nas quais se empregavam navegadores lusitanos, como foi o caso de João Alvarez Fagundes e de João Afonso (Jean Fonteneau, dit Alfonse de Saintonge). Nos planisférios de Desliens e de Desceliers que datam de 1541 e 1546, respectivamente, a referência aos textos cosmográficos de João Afonso estão claramente referidos.

A cartografia normanda alcançou enorme prestígio e valor comercial, sobretudo pelo seu estilo pictórico e ornamental. O mecenato da nobreza e dos grandes mercadores sustentou boa parte dessa produção. A rainha-mãe Catarina de Médici incumbiu o embaixador francês em Lisboa, Jean Nicot, de contratar o cartógrafo André Homem para execução de um mapa da África austral. Durante o reinado de Carlos IX, Jean Nicot atuou também como cartógrafo, embora seja mais conhecido como introdutor do tabaco na corte francesa. Por sua vez, os comerciantes e armadores das cidades portuárias de Dieppe, Le Havre, Honfleur e Rouen também procuraram atrair o apoio do Rei aos seus empreendimentos ultramarinos financiando expedições ou patrocinando a construção de globos e a confecção de atlas e planisférios para serem oferecidos à família real e ao futuro rei Henrique II. Desde as primeiras décadas do século XVI, as embarcações armadas em Dieppe frequentaram regularmente os litorais da América do Sul, onde estabeleceram feitorias em vários pontos, desde a foz do rio Amazonas até o Rio de Janeiro, financiadas por grandes mercadores e armadores de Dieppe, como foi o caso de Jean Ango (1480-1551).

Em 1555, o Almirante francês Nicolas Durand de Villegagnon zarpou do porto de Dieppe em direção à Baia de Guanabara onde, por alguns anos, chefiou o projeto de estabelecimento da França Antártica. Sua expedição militar secreta foi acompanhada por André Thevet, que posteriormente tornou-se o principal cosmógrafo do futuro monarca francês Carlos IX. Além de um relato sobre os primeiros momentos do estabelecimento: Les singularitez de la France Antarctique (1558), Thevet legou-nos La Cosmographie Universelle (1575).

Modelos

Do ponto de vista das linguagens técnicas, pode-se afirmar que os cartógrafos franceses adaptaram com sucesso os protótipos portugueses, integrando os métodos astronômicos praticados pelos portugueses: introduzindo as linhas de rumo e as latitudes observadas utilizando o quadrante e o astrolábio. A adoção do conceito de meridiano graduado para indicar o desvio magnético sugere a interação entre os pilotos portugueses e normandos. Do ponto de vista da representação gráfica, a demarcação mais precisa das costas litorâneas e dos acidentes geográficos, geralmente sublinhados por linhas coloridas, e a clara indicação de rosa dos ventos apontando para o norte também eram características da cartografia portuguesa. Ao contrário das cartas francesas de Dieppe, mais exuberantes e coloridas dos que as portuguesas, recheadas de motivos mitológicos desenhados no interior do continente; as cartas portuguesas eram mais despojadas de elementos ornamentais ou iconográficos.

A presença dos modelos portugueses na cartografia francesa também pode ser notada na época da fundação do Dépôt des plans, cartes et journaux de la Marine em 1720, destinada inicialmente a copiar e coletar cartas náuticas e hidrográficas para o uso da Marinha francesa. A partir de meados do século XVII, pode-se dizer que a cartografia francesa foi se tornando, progressivamente, o centro das inovações técnicas no âmbito da cartografia terrestre por meio da utilização de novos métodos de geometrização do espaço. O impulso foi dado pela criação da Academia de Ciências (1666) e do Observatório Astronômico (1671), ambas instituições sediadas em Paris e fundadas por iniciativa da Coroa francesa.

Escalas europeias

Os métodos de triangulação do território propostos pelo italiano Jean Dominique Cassini cruzaram as fronteiras da Europa. Os métodos trigonométricos foram assimilados pelos cartógrafos e engenheiros militares portugueses, como se pode ver no manual editado por Manuel de Azevedo Fortes, O Engenheiro Portuguez (1729). Engenheiro-mor da coroa portuguesa, Fortes também incorporou as convenções e instrumentos de outros engenheiros franceses, tais como os métodos propostos por Jacques Ozamam, Claude François Milliet Dechalles, Nicolas Buchotte e Jean-Louis Naudin. As transferências dos métodos de observação usados em mar para os espaços terrestres disseminaram uma nova percepção do tempo e do espaço geográfico. Da mesma forma, os novos instrumentos de mensuração geodésica e topográfica (teodolitos, quadrantes e telescópios) orientaram o processo de interiorização da colonização europeia na América. Se no século XVI, a interação entre diferentes navegadores, cosmógrafos, construtores navais, comerciantes e reis foi decisiva para expansão do comércio; igualmente, no século XVIII, ela permitiu o enraizamento territorial dos impérios europeus.

Em 1738, no auge da exploração do ouro em Minas Gerais (Brasil), o monarca português Dom João V mandou construir em Paris um círculo mural de 2,5 pés de raio e um sextante de 3 pés. Com a doação, a coroa portuguesa evidenciava o estímulo em prol das atividades científicas, viabilizando uma rede de contatos entre os principais centros de produção cartográfica na Europa.

Finalmente, os historiadores da cartografia têm insistido sobre a necessidade de rever as interpretações que associam os métodos de representação cartográfica à nacionalidade dos cartógrafos. Foi usual a adoção de critérios classificatórios baseados em escolas ou estilos nacionais, no entanto essa perspectiva que tende a reforçar as ideologias territoriais promovidas pelos Estados nacionais a partir, sobretudo, do século XIX. Convém, portanto, superar as visões nacionalistas da história da cartografia, buscando identificar as formas apropriação e assimilação criativa que permitiam a constante atualização dos conteúdos e dos contextos sociopolíticos em que eles ganharam novos significados.

 

Legenda : Tabula hec regionis magni Brasilis. L. Homem. 1555