Em 1976, o antropólogo Manuel Diegues Júnior notava que, se do ponto de vista imigratório, a importância dos Franceses no Brasil “é pequena ou quase nula, no campo das ideias sua participação foi bem significativa”. Observação que será mais tarde retomada por Mario Carelli, que indica que “os Franceses não forneceram uma massa consequente de imigrantes para o Brasil”, antes de tratar, em poucas linhas, de sua presença e importância nas culturas cruzadas que ligam os dois países. Essas afirmações, repetidas à exaustão, sintetizam à perfeição um topos da historiografia das relações França-Brasil.

O problema não reside tanto nessa constatação, estatisticamente comprovada, mas nas consequências que induz, a saber: silenciar sobre a presença migratória francesa no Brasil. Ora, esse silêncio contribuiu, de um lado, para uma invisibilização desses Franceses e, de outro, para a excepcionalização da influência francesa, insinuando a ideia de que ela teria se desenvolvido, por assim dizer, fora da terra, sem relação com a dinâmica migratória francesa. Nada mais falso!

A única certeza é que, no âmbito da imigração europeia no Brasil (cuja idade de ouro se situa entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século seguinte), a contribuição francesa foi bem discreta. Em 1911, o Adido comercial da República Francesa no Rio de Janeiro confirma a presença de 11.583 franceses no conjunto do Brasil. Unicamente na cidade de São Paulo, cuja população passou de 26 000 habitantes em 1872 para 130 000 em 1895, mais da metade desse crescimento se devendo à vinda de estrangeiros, os Franceses mal representavam 1,55%.

Alguns desses Franceses vieram com a intenção de participar de uma colônia agrícola ou industrial, antes que a proibição da emigração com contrato (entre 1875 e 1908) fizesse com que esse movimento se tornasse nitidamente mais lento. Esse foi particularmente o caso da colônia do Sahy (1842-46 - Santa Catarina), da colônia Tereza (1847-58– Paraná), do Valão dos Veados (1845-54 – Rio de Janeiro), da colônia Benevides (1875-79 – Pará). Raramente havia mais de uma dezena de famílias ou de pessoas envolvidas. Não é, pois, de espantar que as colônias vegetem ou sejam abandonadas, não deixando quase nenhum vestígio físico ou memorial. Apenas a colônia Santo Antônio (a partir de 1880, em Pelotas – Rio Grande do Sul) mantém uma memória em torno de vestígios reais, tendo inclusive um museu.

O principal fluxo das migrações francesas para o Brasil concentra-se, assim, sobretudo nos centros urbanos, sem que seja no entanto fácil identificar os bairros franceses. Naturalmente, a rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, foi a rua das modistas francesas; mas trata-se da exceção que confirma a regra. Pois se em São Paulo existe uma rua dos Franceses, ela nada tem a ver com uma presença francesa nessa rua, ao contrário, talvez, do bairro do Sacomã, cujo nome veio da presença dos irmãos Saccoman, que chegaram de Marselha em 1886. A reputação da olaria que fundaram em 1891 foi tal que as telhas e tijolos Saccoman foram escolhidos para a construção de diversos edifícios públicos, entre eles a famosa Estação da Luz, em 1901.

A essa presença bastante discreta no tecido urbano, podemos opor uma forte presença simbólica dos ofícios ocupados por esses franceses, que se declaram modistas, hoteleiros, cozinheiros, mordomos... e que não hesitam em fazer propaganda, na imprensa local, de seu savoir-faire tão cobiçado pela sociedade brasileira. Adolphe d’Assier ressalta, entretanto, “uma certa facilidade da parte dos franceses em arrogarem-se o papel de mestre ou de especialista das mais disparatadas artes”.

E, de fato, essas categorias raramente resistem à prova dos arquivos. Auguste Glaziou declarou-se tanoeiro e lavrador no momento de embarcar em Bordeaux, antes de afirmar, uma vez no Brasil, competências de jardineiro adquiridas de modo autodidata na França. É por isso que não se deve supervalorizar as qualificações declaradas. Quantas modistas eram na realidade simples cocotes! Longe da imagem de luxo que a sociedade brasileira espontaneamente veicula, e que os próprios migrantes, em sua estratégia de inserção social, se apressam em confirmar, a presença francesa é assim predominantemente banal e modesta. Prova disso são as atividades de inúmeras associações francesas de auxílio mútuo no Brasil. Citemos, no caso do Rio de Janeiro, a Société française de bienfaisance, fundada em 1836, ou ainda a Société française de secours mutuel, fundada em 1856. Na origem desta última, encontramos, aliás, um certo Albert Jierkins, que chegou ao Brasil em 1843 para participar  do projeto de implantação do falanstério do Sahy, e que acabará instalando-se no Rio de Janeiro como sapateiro, após o fracasso da comunidade utópica.

Se a maioria desses imigrantes não foram, portanto, os agentes civilizatórios sob os traços dos quais procuravam às vezes se apresentar, não se deve tampouco subestimar o fundamento migratório que deu origem aos trabalhos da maioria dos intercessores culturais. A “descoberta” da fotografia por Hercule Florence está assim ligada com a sua experiência migratória – particularmente com a sua vontade de ajudar um amigo farmacêutico instalado na mesma pequena aldeia isolada que ele, e que desejava reproduzir simples etiquetas para os seus frascos.

Dos dois lados do Atlântico, as bibliotecas conservam vestígios dessa história. Antes de se tornar conservador da Biblioteca Sainte-Geneviève, Ferdinand Denis tentou fazer fortuna no Brasil, enquanto Camille Cléau, que chegou ao Brasil em 1844 e se naturalizou brasileiro em 1846, tornar-se-á conservador da Biblioteca nacional brasileira entre 1853 e 1870.

 

Publié en juillet 2020
Légende de l'illustration : L'Univers. Brésil. F. Denis. 1837