OS ECOS FRANCESES DO LIVRO E DA IMPRENSA NO BRASIL DO SÉCULO XIX

Jornais e livros orientaram o leitor brasileiro com base no meridiano francês. Foi esta a percepção de Eduardo Frieiro ao identificar as bibliotecas existentes em Minas Gerais, no final do século XVIII, o que lhe permitiu compreender a importância das francesias, ou seja, da recepção da literatura ilustrada francesa na sociedade colonial brasileira, no contexto das lutas pela Independência. 

Essa tendência se manteve durante todo o século XIX e, a bem da verdade, o desenvolvimento da economia dos impressos (jornais, revistas, livros, folhetos etc.) potencializou as francesias no país. De um lado, o nascimento de uma indústria editorial francesa concorreu para uma maior difusão de sua cultura, ao mesmo tempo que a organização da economia do livro brasileira fez circular traduções, adaptações e imagens que tinham como matrizes produtos editoriais oriundos do Hexágono. 

 

https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=217280&pesq=%22Livraria%20da%20Casa%20Imperial%22&pagfis=17226

Anúncio da Livraria da Casa Imperial

Legenda: Anúncio da Livraria da Casa Imperial, de Frederico Waldemar, “antiga Livraria Firmin Didot”, situada na prestigiosa Rua do Ouvidor, 112, Rio de Janeiro. Correio Mercantil, e Instructivo e Universal do Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1860. 

 

A Estação. Jornal Illustrado para a Família 1879

A Estação. Jornal Illustrado para a Família 1879

Legenda: Primeira página de A Estação. Jornal Illustrado para a Família, 31 de janeiro de 1879. Editado pela Livraria Lombaerts & Comp., Rio de Janeiro.

Não sem importância é a circulação de obras políticas. Notemos que a Revolução de Julho de 1830 foi festejada em outubro do mesmo ano entre os liberais que viram na queda de Carlos X, o último rei da dinastia Bourbon, o prenúncio de novos tempos. A monarquia constitucional representada por Louis Philippe d’Orléans se tornou, então, uma bandeira contra os ímpetos absolutistas do imperador D. Pedro I. 

 

O Farol Paulistano 14 10 1830

O Farol Paulistano 14 10 1830

Legenda: Primeira página do jornal O Farol Paulistano, de 14 de outubro de 1830, no qual se noticia, em detalhes, a deposição do rei Carlos X e o coroamento de Louis Philippe d’Orléans. O parti pris do jornal é expresso em diversos momentos nos quais os redatores celebram a vitória do liberalismo e da monarquia constitucional contra a tirania do rei Bourbon. 

 

Também os eventos de 23 de fevereiro 1848, em Paris, que resultaram na deposição do rei e na implantação de um governo provisório, foram acompanhados de perto pela imprensa brasileira. Mas, agora, a desconfiança e o medo provocado por uma revolução de caráter popular e socialista acendeu o alerta entre os conservadores. Para além das notícias vindas da França, estabeleceu-se um debate acalorado em torno de temas como a democracia, o sufrágio universal e o regime republicano. Algumas dessas pautas foram, inclusive, reproduzidas durante a Revolução Praieira, que eclodiu no Recife em 1848, vindo a se estender até 1851. De maio a junho de 1849, as vozes contrárias ao regime republicano e ao sufrágio universal, tão bem representadas pelo libelo De la Démocratie en France (Janvier 1849), de François Guizot, fizeram eco na imprensa brasileira. A tradução e a recepção desse escrito no Brasil é particularmente interessante e constitui um caso singular: uma primeira difusão se deu na forma de folhetim, devendo se tratar do primeiro caso de publicação de um texto político no pé de página de um jornal brasileiro; e uma segunda, por meio da edição em livro, com tradução e impressão realizadas em Paris. A BnF possui este exemplar raro dirigido ao leitorado brasileiro.

Também os catálogos distribuídos por livreiros, não raro impressos em Paris – o que torna o acervo da BnF particularmente importante para a consulta a esses materiais – tiveram um papel muito relevante na difusão das francesias no Brasil. Para citar um exemplo significativo para além dos limites da Corte do Rio de Janeiro, analisemos o catálogo da Librairie Française de Garraux, De Lailhacar & Cie. O primeiro exemplar conhecido data de 1866. O endereço principal da livraria é Largo da Sé, no1, na cidade de São Paulo. A empresa manteve, ademais, uma filial no Recife, na rua do Crespo, no9, sob a administração do sócio De Lailhacar. Lembremos que as cidades de São Paulo e do Recife mantinham as duas faculdades de Direito do país, ou seja, a presença dessas livrarias francesas reforçava o vínculo com o corpo jurídico de norte a sul do Brasil. Aliás, esta edição do catálogo destaca as obras acadêmicas, organizadas nas seguintes seções (em português e francês): “livros de Jurisprudência, Direito, Economia Política, Administração”. Há, por fim, menção a um escritório em Paris (3, rue d’Hauteville), que facilitava os contatos comerciais mediados pelos empresários franceses. 

A temática “os ecos franceses do livro e da imprensa no Brasil durante o século XIX” é muito rica e abrangente. Documentos da época testemunham um circuito multifacetado, que atingiu diferentes esferas da vida política, econômica e cultural brasileira, em grande medida orientada, como apontamos no início, pelo meridiano francês. Porém, essa história pode ser entendida em via de mão dupla, cabendo perguntar em que medida essas trocas resultaram na aproximação do leitorado francês a aspectos da realidade e da paisagem brasileiras, como testemunham as obras de Jules Verne, Pierre Émile Levasseur e Élisée Reclus, para citar alguns exemplos notórios e muito diversos. Mas esta é, sem dúvida, uma outra história!

Referências Bibliográficas

BARBOSA, Francisco de Assis. “Alguns aspectos da influência francesa no Brasil (notas em torno de Anatole Louis Garraux e da sua livraria em São Paulo)”. In : GARRAUX, A.L. Bibliographie Brésilienne. 2a ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962, pp. XI-XXXVII. 
DEAECTO, Marisa Midori. O Império dos Livros. Instituições e Práticas de Leituras na São Paulo Oitocentista. 2ª edição. São Paulo: Fapesp; Edusp, 2019.
DEAECTO, Marisa Midori. História de um Livro. A Democracia na França, de François Guizot (1848-1849). São Paulo: Ateliê Editorial, 2021. 
HALLEWEL, Laurence. O Livro no Brasil. 2ª. ed. São Paulo: Edusp, 2005.

Publicado em Janeiro de 2026