Lucien Guitry : um astro do teatro francês no Brasil

Estrela de primeira grandeza nos palcos da Belle Époque, Lucien Guitry (1860-1925) construiu uma carreira internacional coroada de sucessos. Saudado pela sobriedade e sua postura e pela modernidade das suas interpretações, foi considerado um dos grandes atores da moderna dramaturgia francesa. Entre 1911 e 1916, suas turnês pela América do Sul contribuíram para a difusão do teatro francês e reforçaram as trocas culturais entre a França e o Brasil.

Os anos russos e o início de uma carreira international

Após formar-se no Conservatório de Paris (1876), Guitry ingressou na companhia do Théâtre du Gymnase (1878). Em 1882 viajou à Inglaterra na turnê de Sarah Bernhardt, com quem manteve relação duradoura. De volta a Paris, assinou um contrato para integrar a companhia do teatro francês de São Petersburgo. Durante nove temporadas consecutivas, brilhou no Théâtre Michel (1882-1891). Frequentou os círculos da nobreza imperial russa e estreitou laços de amizade com Tchaikovsky. Dois de seus filhos nasceram na Rússia, cujo czar o admirava. Homenageou o czar Alexandre III dando o nome Sacha Guitry (1885-1957) a seu filho, futuro ator e dramaturgo expoente.

Notoriedade e criações 

De regresso a Paris, Lucien Guitry trabalhou no Théâtre de L’Odéon, no Vaudeville e no Théâtre de la Porte Saint-Martin. Recebeu muitos elogios pela atuação com Sarah Bernhardt no Théâtre de la Renaissance (de 1893 a 1898) e no Théâtre Sarah-Bernhardt. Nomeado diretor da prestigiosa Comédie-Française (1901), ficou pouco tempo à frente da instituição. Desligou-se em julho de 1902 para se lançar como empresário. Arrendou o Théâtre de la Renaissance (1902-1911) e passou a dirigir a própria trupe, representando criações recentes e obras comissionadas. Em colaboração com Paul Bourget, Henry Bernstein, Alfred Capus et Henry Bataille inaugurou uma nova maneira de desempenhar os tipos masculinos. Sua atuação, fundada na naturalidade dos gestos e na contenção expressiva, deixou um legado duradouro na arte dramática francesa. 

As primeiras travessias 

No auge da fama, realizou uma turnê pela América do Sul. Desembarcou no Rio de Janeiro em 26 de junho de 1911, a bordo do navio Araguaya, acompanhado de atores do Vaudeville, em que atuavam a primeira atriz, Henriette Roggers, e Jeanne Desclos, sua companheira. O elenco estreou no recém-inaugurado Teatro Municipal do Rio de Janeiro encenando L´Émigré (1908) de Paul Bourget. 
Lucien Guitry empolgou de imediato os espectadores com repertório de comédias e dramas da atualidade. Na programação constavam La Massière de Jules Lemaître, La Châtelaine de Alfred Capus, La Femme Nue de Henry Bataille, La Griffe, Le Voleur e Samson de Henry Bernstein, autor sensação daquele momento. Guitry incluiu também Chantecler, de Edmond Rostand, peça que tinha representado em Paris com o célebre Coquelin. Os espetáculos foram prestigiados por personalidades ilustres e pelo presidente do Brasil, o Marechal Hermes da Fonseca. A crítica foi unânime em expressar sua admiração pela maîtrise de Guitry, considerado ator extraordinário. 
Animado com a acolhida, Lucien Guitry retornou no ano seguinte. Amanheceu no Rio de Janeiro em 25 de junho de 1912. Na estreia, Jeanne Provost, atriz da Comédie-Française, se destacou no papel principal de Primerose, de Robert de Flers e Gaston de Caillavet. O repertório de sua segunda turnê foi mais enxuto e eclético, misturando obras conhecidas de Émile Augier, como Le Gendre de M. Poirier, e L’Assommoir de Émile Zola, com reprises de Anatole France, Abel Hermant, Maurice Donnay e Henry Bernstein. A turnê incluiu também récitas no Teatro Municipal de São Paulo, inaugurado no ano anterior. 

A última turnê

O estouro da Grande Guerra retardou a terceira turnê. Guitry chegou finalmente em 18 de julho de 1916, durante a semana da festa nacional da França. Fez sua estreia com a versão atualizada da peça L’Aiglon, de Edmond Rostand. Atuou como Flambeau, contracenando com Louise Starck, que interpretou o duque de Reichstadt, papel desempenhado por Sarah Bernhardt em 1901. 
Em louvor à França que estava em guerra, Guitry declamou também versos de Victor Hugo. A declamação reforçava a mensagem patriótica da turnê destinada a suscitar a simpatia do público brasileiro pela causa dos Aliados. Para além do valor artístico, os espetáculos ajudaram a difundir as produções mais recentes do teatro francês e a fortalecer os vínculos culturais com a França. 
As turnês de Lucien Guitry testemunham a intensidade das trocas culturais franco-brasileiras no início do século XX. Elas ilustram o papel desempenhado pelos artistas na circulação transatlântica de obras, práticas teatrais e referências culturais entre a Europa e a América do Sul. 

 

Publicado em 2026
 

Legenda : [Lucien Guitry dans "Kismet" de Edward Knoblauch / dessin de Yves Marevéry]