O século XVII brasileiro é geralmente considerado o século do açúcar, vinculado com o comércio atlântico de escravos que foi seu corolário. De fato, esse período abrangeu transformações múltiplas que afetaram de modo diverso esse espaço, levando a reconhecer um Brasil plural para além da economia de “plantation”.
Guerras e populações locais
Basicamente, esse período corresponde à formação de uma sociedade escravista complexa na qual tanto a escravidão africana quanto a indígena foram praticadas, segundo modalidades distintas. Se o Brasil foi então o palco de várias rivalidades europeias – lembramo-nos da “França equinocial” e do “Brasil holandês”, também deu lugar a guerras constantes contra os indígenas e os africanos escravizados fugindo dos engenhos e da escravidão. Desse século conturbado, marcado por intensos deslocamentos de populações, tanto transatlânticos quanto internos, surgiu uma categoria de indígenas designada como “tapuias” e os negros dos Palmares.
A escritura da América portuguesa
Entretanto, o melhor conhecimento do litoral brasileiro é evidenciado pela produção cartográfica de João Teixeira Albernaz. As informações relativas ao Brasil também se multiplicaram, circulando através do Atlântico e da Europa, como na esteira da tomada da Bahia em 1624 ou da invasão de Pernambuco pelos holandeses em 1630. Tal aumento refletia a intensificação da colonização portuguesa durante a união das Coroas de Portugal e de Castela (1580-1640). O fortalecimento dos laços políticos com a Península Ibérica andou junto com a integração do Brasil no Atlântico e o estreitamento da sua conexão com Angola, que se tornou um importante fornecedor de escravos durante esse período, abastecendo os engenhos do nordeste brasileiro. No entanto, o desconhecimento do interior da América portuguesa persistiu e a exploração dos sertões só avançou lentamente ao longo do século XVII.
Os sertões “desconhecidos”
Foi neles que os indígenas do litoral, fugindo das guerras e da escravidão, encontraram refúgio, foi também aí que se formaram mocambos, dando abrigo aos escravos fugitivos. Esse Brasil era o dos “tapuias”. O termo vem dos Tupinambá que qualificavam os seus inimigos dessa maneira. Os portugueses transformaram-no numa categoria colonial designando os indígenas do interior considerados hostis. Foi construída como uma alteridade absoluta, em oposição aos Tupiniquins aliados dos portugueses. No entanto, essa categoria abrangia uma grande diversidade de povos originários, com línguas distintas. As referências aos “tapuias” são escassas durante a segunda metade do século XVI. Tornaram-se mais frequentes ao longo do século XVII e Pierre d’Avity também fez alusão a esses povos. Os holandeses retomaram esse mesmo termo, mas deram descrições mais detalhadas dessas populações, que se encontram por exemplo em Caspar Barleus e Johann de Laet. Entre esses “tapuias”, alguns grupos ganharam maior destaque, como os Tarairiu aliados dos holandeses. São eles que Roulox Baro menciona no seu relato sobre o “país dos Tapuias”, traduzido para o francês por Pierre Moreau, que também redigiu uma relação da guerra entre os portugueses e os holandeses no Brasil.
Outros atores políticos
A invasão holandesa do Pernambuco perturbou obviamente o comércio atlântico, mas também teve um impacto profundo no interior. A importância das alianças indígenas, que muitas vezes determinaram o curso da guerra luso-holandesa, forçou o seu reconhecimento político. Esse reconhecimento também disse respeito aos negros dos Palmares. A formação dos Palmares inscreveu-se na esteira deste conflito, que provocou importantes movimentos populacionais e favoreceu a fuga de escravos. Estes fugitivos refugiaram-se no interior da capitania de Pernambuco, organizaram-se politicamente e resistiram ao poder colonial até o final do século XVII. A “guerra dos Palmares” deu lugar a várias negociações com as autoridades portuguesas durante a segunda metade do século. As guerras com os indígenas resultaram na chamada “guerra dos Bárbaros”. Entretanto, as missões religiosas tornaram-se mais numerosas no sertão, visando “reduzir” de outra forma essas populações do interior. As relações dos capuchinhos franceses Bernard de Nantes e Martin de Nantes sobre as suas missões junto dos Kiriri testemunham esse esforço que se manifestou também através da produção de gramáticas destinadas a fixar as suas línguas e facilitar a conversão desses povos, como a de Mamiani e de Bernard de Nantes. Instrumentos de evangelização, essas línguas foram também o lugar de negociações e de resistências.
Outros Brasis
Finalmente, é um vasto continente interior que vai surgindo ao longo do século XVII, desfazendo o mito da “ilha-Brasil”, difundido no século XVI. Um Brasil plural, composto por populações diversas e línguas diferentes, cujo eco se encontra na poesia de Gregório de Matos no final do século XVII.
Publicado em abril de 2026