L’Indépendant : feuille de commerce, politique et littéraire (RJ, 1827) foi o primeiro periódico em francês publicado no Brasil em 1827, impresso na tipografia do exilado bonapartista Pierre Plancher que havia chegado em 1823 em busca de explorar a demanda por impressos na ex-colônia portuguesa. Surgido apenas vinte anos após a liberação da imprensa no país (1808) e cinco anos após a Proclamação da Independência (1822), foi o pioneiro entre os cerca de 60 títulos de jornais, revistas e almanaques que viram à luz neste idioma no país, produção que se estendeu ao século XX, como é possível ver no Catálogo Transfopress Brasil, que inclui os títulos disponíveis em acervos.
No editorial, o redator M. Jourdan justificava a publicação de um jornal em francês na cidade que sediava a Corte imperial, «[…] Rio de Janeiro, véritable métropole de l'Amérique du Sud […] où l'on voit un concours prodigieux d'Étrangers de tous les Pays dont le seul moyen de communication intellectuelle est le français; […] où le toute personne dont l'esprit a reçu quelque culture, parle ou du moins entend et lit le français.» (1º abr. 1827). A imprensa francófona brasileira nasce, assim, com inclinação cosmopolita e transnacional.
É possível dividir estas publicações em três períodos: a primeira fase, que se estende de 1827 e vai até meados do século XIX, com títulos menos longevos e de expressão mais limitada. A maioria era de hebdomadários que saíam aos sábados, com seções noticiosas, além das dedicadas às artes, sobretudo literatura e teatro, campo em que franceses foram referência para os românticos nacionais.
A segunda fase, a “era de ouro” da publicação de periódicos francófonos no Brasil, se estendeu de meados do século XIX, com o advento do Courrier du Brésil (RJ, 1854-1862) até o pós-guerra com Le Messager de São Paulo (SP, 1901-1924), período que corresponde à ascensão da imprensa comercial no país. O Courrier era publicado por um grupo de proscritos quarante-huitards e contava com a simpatia do imperador D. Pedro II, apesar de terem uma plataforma republicana no seio da monarquia brasileira do Segundo Reinado (1840-1889). Este jornal contou com colaboração ilustre, como Charles Ribeyrolles, também em exílio no Rio de Janeiro, e Victor Hugo, que enviava correspondência. A discussão sobre os princípios republicanos deu frutos no debate político que levou à Proclamação da República do Brasil em 1889.
O último jornal dessa fase, cujo título era grafado em francês até 1904, Le Messager de St. Paul, abrasileirou seu nome e sua plataforma. Foi o maior jornal francês de São Paulo e se envolveu em conflitos da elite local, rendendo-lhe o empastelamento por ocasião de uma rebelião militar nacionalista, a Revolta de 1924. Tais exemplos demonstram o forte engajamento dos franceses nas questões nacionais e sua crescente integração à sociedade brasileira.
É uma fase que corresponde à ascensão da imprensa comercial nacional e a intensas trocas de savoir-faire entre franceses e brasileiros no âmbito dos impressos periódicos. A atuação de franceses no ramo editorial, incluindo livreiros, jornalistas e tipógrafos, foi significativa em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, apesar de a migração para o Brasil nunca ter sido numerosa. No espaço de cem anos, entre 1820 e 1920, temos apenas cerca de 30 mil imigrantes franceses frente a aproximadamente 3,5 milhões de imigrantes em geral.
O caráter oficioso apresentado pela migração escassa fazia desses periódicos órgãos de utilidade pública, com informações oficiais, burocráticas e de ordem prática, ensaios sobre as características da sociedade brasileira, estatísticas demográficas, descrições do território e debates sobre as condições políticas e econômicas. A maior parte das folhas também trazia a discussão sobre notícias estrangeiras e não raro importavam as disputas provenientes de solo francês, alimentando a rivalidade entre os grupos locais. A cartela de anunciantes, por sua vez, ajudava esses indivíduos dispersos a se localizarem na cidade, conferindo um sentido de organicidade para a colônia. Alguns desses jornais e revistas eram vendidos no exterior e informavam sobre os trópicos. Essas funções garantiam à maior parte desses impressos sobrevivência e propósito. E em uma migração singular, sem apoio institucional, os franceses neles encontravam a tribuna que lhes faltava.
A maioria deles eram noticiosos e poucos traziam imagens como Ba-ta-clan: chinoiserie franco-brésilienne (RJ, 1867-1871), que ficou muito famoso pelas caricaturas dos atores de companhias estrangeiras de passagem pelo Brasil e era vendido em vários países das Américas e da Europa. Há poucos dados quanto às tiragens, mas tudo indica que eram baixas, com uma ou outra exceção como o Ba-Ta-Clan, a Revue commerciale, financière et Maritime (RJ, 1882-1885) que alterou o nome para L’Étoile du Sud (RJ, 1885-1924) e a Revue Franco-Brésilienne (RJ, 1909-1922) que comprovam a regra. Esta última foi editada por Émile Lambert por várias décadas em edições quinzenais, com muitas páginas, diagramação ousada e imagens, cuja detalhada cobertura que fez da Primeira Guerra ganhou repercussão, atestando sua importância ao atingir leitores estrangeiros de várias nacionalidades, além dos brasileiros versados em francês.
E, enfim, houve uma terceira fase, que incluiu periódicos isolados, em geral vinculados a órgãos oficiais de representação como a Aliança Francesa, caso da Revue Française du Brésil (RJ, 1932-1939) cuja trajetória se estendeu até os anos de 1960 com alteração do título e de formato. Durante o período mais acirrado da repressão do governo totalitário do ditador Getúlio Vargas que proibiu a imprensa em língua estrangeira (1939), foi publicada em português como Revista Franco Brasileira (RJ, 1940-1944?) e depois volta como Journal Français du Brésil (1952-1960?), mantendo o mesmo editor, Luiz Annibal Falcão. Edições especiais e luxuosas, porém, continuaram a sair em formato de magazine, em geral em efemérides que comemoravam os laços entre os dois países.
Suas matérias reforçaram estereótipos sobre a dita influência francesa no Brasil, mas também tiveram um importante papel diplomático, com a atuação como passeurs culturels entre os dois lados do Atlântico, característica que marcou este tipo de imprensa ao longo de sua existência.
Publié em Agosto de 2025
Legenda : Revue franco-brésilienne. [Seul et unique organe exclusivement français au Brésil], 1918