Paris não acolhe nenhuma “festa brasileira” como a que encantou Rouen no século XVI, mas celebra, dizem, no início deste mesmo século, as núpcias da índia Paraguaçu com Caramuru. Quase um século depois, em 1613, a cidade recebe uma curiosa embaixada de índios tupinambás, relatada pelo padre capuchinho Claude d’Abbeville.

Entre o século XVII e o início do XIX, essa presença é mais sutil e indireta. Alguns notáveis da colônia brasileira vão à França a serviço de Lisboa. De 1715 a 1719, o jovem Alexandre de Gusmão (1695-1753), adido da embaixada portuguesa em Paris, aproveita sua temporada na cidade para concluir sua formação em Direito. Em 1750, já diplomata, articulará o Tratado de Madri, assinado entre Espanha e Portugal, documento que desenha parcialmente a atual configuração do Brasil. José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o patriarca da independência, também estudou em Paris. Integra-se rapidamente ao meio científico da capital e participa, ao lado de seu compatriota Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá (1764-1835) e do português Joaquim Pedro Fragoso da Mota de Sequeira (1760-1838), de uma missão científica portuguesa. Tendo chegado em julho de 1790, José Bonifácio assiste à Festa da Federação, evento que contribuiu, mais tarde, a construir sua defesa da monarquia constitucional, instaurada no Brasil depois da independência do país em 1822.

Anseios de independência

A partir da declaração de sua independência, em 07 de setembro de 1822, a jovem nação intensifica suas trocas com a França. O pintor Manuel de Araújo Porto Alegre (1806-1879), discípulo de Jean-Baptiste Debret, participa dos debates do recém-criado Instituto Histórico de Paris, ao lado de seus amigos de juventude, o poeta Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882) e o intelectual Francisco Sales Torres Homem. Juntos, eles editam em Paris a revista Nitheroy, documento ao mesmo tempo literário e político, fundador do romantismo brasileiro e de certa construção identitária do Brasil.

De 1845 a 1887, catorze artistas bolsistas brasileiros vêm se aperfeiçoar em Paris. Entre eles Victor Meirelles (1832-1903), que pinta a Primeira Missa no Brasil, imagem emblemática que celebra a descoberta do Brasil e o nascimento da nação, muito inspirada nos quadros de Pharamond Blanchard (Primeira missa na América, por volta de 1850) e mais ainda em Horace Vernet (Primeira missa na Cabília, 1854). Graças a esse quadro, o pintor é o primeiro brasileiro a ser exposto no Salão de Paris, em 1861.

A maioria dos artistas e intelectuais volta ao país para participar da expansão da cultura brasileira, mas alguns conservam fortes laços com o meio parisiense, como o modernista Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), membro do grupo de L’Effort Moderne e da revista de vanguarda  Montparnasse, e autor, entre outros, de um inusitado “Quelques visages de Paris”.

No campo musical, as trocas são igualmente prolíficas; o ponto culminante sendo a presença de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), que conquistou o mundo via Paris nos anos 1920.

No final do século XIX, o céu de Paris torna-se o campo das aventuras dos pioneiros do aerostação.  O mais famoso deles, Alberto Santos-Dumont (1873-1932), conhecido no Brasil como o “pai da aviação”, conta seus feitos em sua autobiografia « Dans l’Air », publicada em francês em 1904. Entretanto, dois outros inventores menos famosos também se destacam: Júlio César Ribeiro de Souza (1843-1887) e Augusto Severo de Albuquerque Maranhão (1864-1902) que morre em um desastre aéreo em 1902, na avenida Du Maine.

Capital do exílio

Paris será a capital de três exílios brasileiros. Após a queda da monarquia em 1889, muitos membros da aristocracia, banidos pelo novo governo republicano, estabelecem-se na França. O imperador deposto Pedro II (1825-1891) morre em Paris e recebe da República francesa uma homenagem solene que confirma seu prestígio junto aos parisienses.

Durante o governo Vargas, de 1930 a 1945, comunistas e artistas afluem para a cidade. O embaixador Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), “o mais célebre dos brasileiros de Paris”, segundo Jean d’Ormesson, recebe e ajuda todos os seus compatriotas, inclusive os exilados políticos. Sob a ocupação, o diplomata subtrai-se às ordens e emite vistos falsos, salvando centenas de refugiados judeus, gesto pelo qual é reconhecido como “Justo entre as nações”. Em 1946, será um dos cofundadores da Casa da América Latina.

Enfim, entre 1964 e 1985, a ditadura militar obriga boa parte da intelligentsia a retirar-se e Paris torna-se a capital da oposição no exterior. Do antigo presidente Juscelino Kubitschek ao futuro presidente Fernando Henrique Cardoso, passando pelo arquiteto Oscar Niemeyer, o cineasta Glauber Rocha, o fotógrafo Sebastião Salgado, o geógrafo Josué de Castro ou o economista Celso Furtado, todos escolhem a França, incitados pelos laços históricos entre os dois países. Sua presença é certamente instigada pelo interesse dos pesquisadores franceses pelo Brasil.

Brasileiras

A capital também se tornou um espaço de liberdade para as mulheres, que fugiam da sociedade brasileira machista do século XIX. Nísia Floresta (1810-1885), uma pioneira do feminismo, chega em 1849 com seus dois filhos. Discípula de primeira hora de Auguste Comte, as sete cartas que endereçou ao filósofo estão entre as raras que ele conservou. A artista Abigail de Andrade (1864-1890) fugiu para viver livremente com o seu professor e amante Angelo Agostini, o maior ilustrador do Segundo Império, considerado como o primeiro cartunista brasileiro. Quanto a Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930), ela foi uma das primeiras mulheres a entrar na Bolsa de Paris e ali investir sua fortuna, o que justifica que a sua certidão de óbito lhe atribua a profissão de “bilionária”.

Nos anos 1930, a militante e mulher de letras Patrícia Galvão (1910-1962), conhecida como Pagu, mora apenas um ano em Paris, pouco antes do advento da Frente Popular. Adere ao Partido Comunista Francês e participa dos combates de rua contra os fascistas. Detida diversas vezes pela polícia, é presa antes de ser repatriada para o Brasil, em outubro de 1935.

Essas personagens emblemáticas da comunidade brasileira de Paris, pouco numerosa até o final do século XX, pertencem à elite econômica e intelectual, mas sua presença revela, em negativo, a história do Brasil e sua relação com o modelo francês.

 

Publié en juillet 2020
Légende de l'illustration : Santos Dumont, [sur la "Demoiselle"] à Saint-Cyr, 12 novembre 1908. Agence Rol. 1908